Título: Mulher de Kirchner garantiria impunidade
Autor: Paraguassú, Lisandra
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2007, Internacional, p. A14

Líder de coalizão centro-esquerdista afirma que o governo atual é o mais corrupto da história argentina

Buenos Aires - ¿Davi e Golias em versão feminina.¿ Dessa forma, Elisa Carrió, a líder da oposicionista Coalizão Cívica, define sua disputa com a candidata governista às eleições presidenciais do dia 28, a primeira-dama Cristina Kirchner. Famosa por denunciar grande parte dos maiores escândalos de corrupção da última década, ela lidera uma coalizão de centro-esquerda política que prega a ética para reformar a política argentina. Elisa oscila entre os 15% e 18% das intenções de voto. Caso Cristina não consiga mais de 40% dos votos e uma margem de 10 pontos de diferença para o segundo colocado, haverá segundo turno. E é nisso que ela aposta para vencer o casal Néstor e Cristina Kirchner, segundo afirmou em entrevista que concedeu ao Estado, em Buenos Aires.

Segundo as pesquisas, existe uma grande possibilidade de que o governo, representado por Cristina, vença no primeiro turno...

O governo pode ¿ganhar, mas perder¿. Ou seja, pode vencer a eleição, mas sofrer ampla derrota nas grandes cidades. E nós nos consolidaríamos como a principal força opositora. Se o Cristina conseguir 40% dos votos, isso significa apenas a manutenção do poder, mas não a da legitimidade. Isso seria ganhar perdendo.

Existe a crença popular de que só os peronistas podem governar o país. Desde 1928, só os presidentes peronistas conseguiram concluir seus mandatos...

Aceitar isso seria nos condenar à uma governabilidade mafiosa. Existe uma alternativa possível, a de um governo de coalizão cívica como a nossa. Um governo que incorpore os peronistas de convicções republicanas. Não acredito numa coalizão que provoque um antagonismo com o Peronismo. Mas acredito numa coalizão que inclua os peronistas comprometidos com a ética. Um partido sozinho não poderia governar aqui.

Mas essa crença se aprofundou desde a crise 2001. O Peronismo é mesmo mais capaz de administrar a Argentina?

Acreditar nessa idéia é condenar o país ao precipício. Essa governabilidade peronista nos leva ao excesso de poder, ao nepotismo, à corrupção. O país precisa uma saída qualitativa, com valores republicanos. Não podemos mais ter uma governabilidade de conjuntura, mas sim, uma estratégia de longo prazo. Para um governo de conjuntura, nada melhor que um peronista (rindo).

O Peronismo seria como um antibiótico? Cura o problema na emergência, mas deixa problemas colaterais...

Que acabam com a sua vida. Como dizia o escritor Jorge Luis Borges, ¿os peronistas não são bons, nem ruins... são incorrigíveis¿.

A sra. disse recentemente que o governo Kirchner é o mais corrupto da história argentina...

Tenho certeza disso. Até mesmo mais corrupto do que o governo (do ex-presidente Carlos) Menem. Isso fica claro com o superfaturamento no preços de obras públicas, que vão de 120% a 200%. O superfaturamento na época de Menem iam de 10% a 15%.

Num eventual governo de Cristina, esses níveis poderiam continuar?

Não acho que teria esse grau de corrupção. Mas acredito que ela garantiria um elevado nível de impunidade para casos já investigados. Além disso, não teria como pôr fim aos esquemas do marido com as empresas.

A idéia é fazer um grande ¿julgamento de Nuremberg¿ da corrupção?

Vou me dedicar a governar para o futuro. Mas, paralelamente, haverá Justiça sobre os atos do passado.

O casal Kirchner tem absoluta certeza da vitória no primeiro turno, pois o presidente poderia ter saído candidato a senador ou governador por seu reduto político, Santa Cruz, e assim garantir a imunidade...

Sim. Mas se ela não vencer no primeiro turno, terá problemas. Entre o primeiro turno e o segundo, a batalha será terrível. Que Deus nos ajude! Nessa fase não estará em jogo só o poder, mas também a impunidade...

Kirchner, a partir de 10 dezembro, passa a faixa presidencial e fica sem imunidade. Se a oposição vencer, ele pode ser levado aos tribunais pelos casos de corrupção?

Os Kirchners apostam no cenário de vitória, no qual a garantia de impunidade é Cristina. Mas nós podemos vencer.

Se chegar ao poder, o que faria em relação à dívida com o Clube de Paris e os credores privados que ficaram de fora da reestruturação da dívida pública?

Queremos honrar a dívida, mas de acordo com a capacidade de pagamento do país. Estamos dispostos a nos submeter às devidas auditorias.

Se vencer, a sra. conviverá com o presidente Lula durante três anos. Como será essa relação?

Confio no Brasil, em seu presidente institucional e no Itamaraty.

Com que palavra a sra definiria a relação que a administração Kirchner tem com o Brasil?

Ressentida. E é preciso mudar isso.