Título: Cristina defende parceria com Brasil
Autor: Paraguassú, Lisandra
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2007, Internacional, p. A14

Candidata argentina reúne-se com Lula e propõe que os dois países impulsionem `círculo virtuoso¿ de crescimento

Brasília - Candidata favorita à presidência da Argentina, a primeira-dama e senadora Cristina Kirchner chegou no início da tarde de ontem, com mais de uma hora de atraso, para uma agenda de algumas horas em Brasília. A senadora, mulher do presidente Néstor Kirchner, almoçou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Alvorada, antes de reunir-se com empresários brasileiros no Itamaraty. Embora Lula tenha como norma não declarar apoio a candidatos de outros países, a visita representou um gesto de aproximação da Argentina com seu terceiro principal parceiro comercial.

Cristina defendeu a ¿associação estratégica¿ entre Argentina e Brasil, afirmando que deve servir de base para um ¿círculo virtuoso¿ de crescimento em toda a região. ¿O mundo atual tende à formação de blocos, e creio que a ampliação e o aprofundamento deste que formamos no Mercosul é o desafio de todos nós¿, disse ela.

Uma das 13 candidatas à presidência argentina, Cristina foi a única a pedir um encontro com o presidente brasileiro. Durante o almoço com Lula, o Mercosul, a Bolívia e a Venezuela foram temas centrais. Lula chegou a comentar com Cristina que está fazendo esforços para acelerar a aprovação pelo Congresso da adesão da Venezuela ao Mercosul. Investimentos no desenvolvimento da indústria de gás boliviana - importante para os dois países - também foram discutidos.

À tarde, a candidata reuniu-se com um grupo de 16 empresários brasileiros para ¿vender a Argentina¿ e pedir mais investimentos em seu país. Mas teve de responder a perguntas sobre a real inflação argentina e sobre a recomposição de tarifas públicas, congeladas pelo governo e uma das preocupações dos investidores. As perguntas espinhosas foram rebatidas com garantias de que a economia do país vizinho vai bem e pedidos de mais investimentos.

Uma das questões que Cristina teve de responder foi sobre a inflação do país. Alguns empresários lembraram que consultorias econômicas apontam para uma inflação de até 17% nos últimos 12 meses, números rejeitados pelo governo. A senadora manteve a posição oficial: a inflação no país, de agosto de 2006 a agosto deste ano, medida pelo governo, é inferior a 10%. A questão da inflação tem sido um dos pontos centrais da campanha presidencial argentina. Funcionários do instituto argentino que faz o cálculo inflacionário (o Indec) acusam o governo de manipular dados para baixar artificialmente o índice.

Consultorias econômicas apontam, por exemplo, para um aumento de até 20% na cesta básica no primeiro semestre deste ano, enquanto a taxa oficial é de apenas 3,9%.

Outra questão levantada pelos empresários foi a da recomposição das tarifas públicas, algumas congeladas desde 2003, especialmente na área de transporte. Cristina afirmou que essa é uma política necessária, mas precisa ser conduzida ¿com equilíbrio¿, justamente para não causar mais inflação. De acordo com o assessor especial de relações internacionais do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, Cristina foi até mesmo irônica ao responder que buscará uma recomposição de tarifas com controle de inflação, mas dobrar ou triplicar tarifas causará, ao mesmo tempo, reivindicações por aumento de salários.

Alguns empresários brasileiros, no entanto, têm reclamado da redução dos lucros por causa do congelamento. No segundo trimestre deste ano, a Petrobrás - uma das maiores investidoras na Argentina - teve uma queda de 66% no faturamento em relação ao mesmo período do ano passado.

Em sua apresentação inicial, Cristina garantiu que a Argentina está num processo de ¿reindustrialização¿, de ¿aprofundamento da competitividade¿, e hoje tem bases econômicas sólidas. A candidata garantiu que o país retomará as negociações com o Clube de Paris, mas não vai seguir as condições determinadas pelos credores porque ¿essas políticas tiveram um resultado totalmente nulo¿.

¿Podemos ter uma negociação séria e concreta que, seguramente, vai ajudar a solucionar os problemas de financiamento para atrair investidores¿, afirmou Cristina.

VIZINHANÇA BARULHENTA

Influência regional: Argentina reconhece implicitamente liderança brasileira na região. Mas a intenção de pôr argentinos no comando de organismos regionais como a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) entra em choque com pretensões brasileiras

Investimentos: Apesar de o Brasil ser o terceiro maior investidor privado na Argentina, governo Kirchner costuma criar problemas para as empresas brasileiras no país. Vizinho complica a eventual compra dos ativos da Esso no país pela Petrobrás, por exemplo

Venezuela: Brasil tenta afastar-se de Hugo Chávez e impõe limites à expansão de sua influência. Apesar de manter fortes relações com Chávez, a Argentina ensaia afastamento gradual e cauteloso

Apoio internacional: Como membro do Mercosul, Argentina sempre espera apoio do Brasil nos fóruns internacionais, especialmente em relação aos organismos financeiros, mas governo Lula reluta em dar apoio explícito. Kirchner, por exemplo, cobrou de Lula o fato de o Brasil não ter apoiado oficialmente a Argentina nas negociações com o FMI