Título: Saída de capital supera entrada em US$ 3 milhões
Autor: Freire, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2007, Economia, p. B16
Em setembro, o fluxo de moeda estrangeira ficou negativo pela primeira vez desde dezembro de 2006, em razão da crise financeira mundial
A instabilidade financeira mundial e o crescimento das importações levaram as saídas de capitais estrangeiros do País, em setembro, a superar os ingressos em US$ 3 milhões. A última vez que essa conta havia apresentado saldo negativo foi em dezembro de 2006, mas em magnitude bem maior. No último mês de 2006, o volume de dólares remetidos para o exterior ficou US$ 3,5 bilhões acima das entradas.
Os números de setembro, divulgados ontem pelo Banco Central (BC), evidenciaram uma recuperação do fluxo nos últimos sete dias úteis do mês. O mercado estima que a entrada de dinheiro estrangeiro tenha superado as saídas em US$ 1,04 bilhão. No ano, o fluxo cambial é positivo em US$ 70 bilhões.
A melhora, de acordo com o economista Leonardo Miceli, da Tendências Consultoria, ficou concentrada no segmento do mercado por onde passam as transações de caráter financeiro, como aplicações na Bolsa, renda fixa e investimento direto. 'Do lado comercial, houve pouca alteração no fim do mês passado', disse ele, em nota para clientes da Tendências.
Apesar da melhora, o mercado financeiro não acredita em aumento expressivo do fluxo de moeda estrangeira nos últimos três meses do ano. 'O fluxo deverá ficar negativo ou ligeiramente positivo', disse o superintendente de Tesouraria do Banco Banif Brasil, Rodrigo Trotta.
No fim de ano costumam crescer as remessas de recursos para exterior. 'Além disso, o ambiente econômico internacional não é favorável a um aumento da entrada de dinheiro estrangeiro no Brasil', destacou. Para ele, o Brasil não voltará a ter fluxos de valores acima dos US$ 10 bilhões como ocorreu nos meses de abril, junho e julho.
Trotta acha, entretanto, que o Banco Central já tem espaço para voltar a comprar dólares no mercado de câmbio. 'Os dados de posição de câmbio dos bancos indicam que já há vendedores em potencial para o BC', comentou.
No final de setembro, a posição comprada em câmbio dos bancos aumentou dos US$ 793 milhões,do dia 19, para US$ 1,772 bilhão. 'Os bancos absorveram quase todo o fluxo positivo dos últimos dias do mês passado', disse o executivo. O aumento da inflação, entretanto, deverá deixar o BC fora do mercado de câmbio no curto prazo. 'Acho que o BC vai deixar o dólar chegar aos R$ 1,80 para ajudar no combate ao aumento da inflação.'
A explicação para a valorização recente do real em relação ao dólar, na opinião do economista Rodrigo Eboli, da Mellon Global Investiment, não deve ser procurada nos resultados do fluxo de moeda estrangeira para o País. 'O que está prevalecendo mesmo é a melhora dos nossos fundamentos econômicos, que pode ser constatada pela queda do risco Brasil', disse Eboli.
NÚMEROS
US$ 3 milhões foi o saldo negativo do fluxo cambial (diferença entre a saída e a entrada de capitais estrangeiros do País) em setembro
US$ 3,5 bilhões foi o saldo negativo em dezembro de 2006, último mês em que a conta havia sido desfavorável
US$ 70 bilhões é o saldo positivo no ano
US$ 1,04 bilhão foi o saldo positivo do fluxo cambial nos últimos 7 dias úteis de setembro