Título: Os ratos abandonam o navio
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2007, Notas & Informações, p. A3

Pode ser que Renan Calheiros ainda esteja na presidência do Senado quando o leitor abrir a edição de hoje deste jornal. Mas sua renúncia - ou ¿deposição¿ - parece agora quase inevitável. E ainda que a sua agonia se prolongue por mais alguns dias, ou, no que poucos acreditam, por mais algumas semanas, o ponto de não-retorno do seu afastamento da cadeira que se recusa a abandonar foi alcançado na sessão de anteontem da Casa. O Senado da República decerto já assistiu a cenas incomparavelmente mais deprimentes - como foi a de 4 de dezembro de 1963, quando o então senador alagoano Arnon de Mello atirou no seu arquiinimigo Silvestre Péricles e acertou o suplente acreano José Kairalla, matando-o diante da família reunida para vê-lo no último dia do mandato temporário.

Mas o tiroteio da terça-feira entre Calheiros e os seus pares, até do seu próprio partido, que se sucediam na tribuna cobrando o seu afastamento, também entrou para os anais dos vexames do Congresso Nacional. A atual crise já se distinguia, entre outras razões, por ter impelido mais de um de seus decerto involuntários protagonistas a dizer, em plenário e à imprensa, palavras em outras circunstâncias impublicáveis sobre o estado de devastação moral e política a que a Casa foi tangida pela impudência do seu presidente. Mesmo na crônica dos abomináveis costumes políticos nacionais, hão de se contar nos dedos as vezes em que o titular do Senado acusou um dos seus membros, no caso, o representante de Goiás, Demóstenes Torres, de haver transformado a instituição ¿em delegacia de polícia¿ - para ouvir, de bate-pronto, a verdade insofismável de que essa transformação se deve a ele.

Ao lado do tucano Marconi Perillo, também de Goiás, o democrata Demóstenes foi um dos senadores que o desmoralizado político alagoano queria que fossem espionados, como veio a público no último fim de semana. Da torpe operação - que nega ter encomendado, embora tenha ¿sacrificado¿ seu assessor Francisco Escórcio, encarregado de executar parte dela em Goiânia - Calheiros esperava colher material que lhe permitisse chantageá-los, para calar as suas vozes e votos nos três processos que ainda o assombram, depois da famigerada sessão secreta em que escapou da cassação. A revelação do frustrado esquema de espionagem foi quase simultânea à notícia do escandaloso desligamento dos peemedebistas independentes Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon da Comissão de Constituição e Justiça, executado pela criadagem de quem se conduz como dono da Casa - segundo líderes peemedebistas, em parceria com o presidente da República que ainda teme uma derrota na votação da CPMF no Senado.

Também por isso, além de dar azo a uma quinta representação contra Calheiros por afronta ao decoro parlamentar, a nova demonstração da impudência com que costuma agir foi a proverbial palha que quebra a espinha do camelo. E embora, para conforto da sociedade aturdida com o grau de impenitência do senador, fosse desejável que não apenas 12, de 80 teoricamente possíveis, tivessem ido ao microfone para exigir o seu afastamento, o que acima de tudo marcou a sessão da terça-feira, prenunciando o desfecho da crise, foi o fato de que ninguém, rigorosamente ninguém, saiu em sua defesa. Nem mesmo o senador Almeida Lima, José Sarney e Roseane deram o ar de suas graças. Em tempos de abandono de barco, a tropa de choque de Calheiros se parece cada vez mais com o Exército Brancaleone.

E, em matéria de ¿conte-me fora dessa¿, destaca-se a guinada da bancada petista. Nesse arriar dos botes, misturam-se interesses pessoais e oficiais. O acreano Tião Viana, por exemplo, tem tudo para desejar a defenestração de Calheiros: afinal, ele é o vice. O paulista Aloizio Mercadante engrossa o coro dos descontentes para endireitar situação torta em que ficou ao contar que se absteve de votar pela cassação do indecoroso, o equivalente a votar pela absolvição. E a catarinense renanzista Ideli Salvatti, líder dos companheiros na Casa, ao invocar subitamente o ¿melhor andamento dos trabalhos¿, ecoa o desassossego do Planalto com o destino da prorrogação da CPMF, num Senado obstruído pela oposição anti-Calheiros, que, sem ele, fará a vontade do governo - e dos seus governadores.