Título: Caminho para país unificado é longo
Autor: Perez, Angela
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/10/2007, Internacional, p. A13

Historiador assinala que o gigante asiático ainda responde a crises, em vez de ter um planejamento de longo prazo

Entre as preocupações dos líderes reunidos no congresso do Partido Comunista está uma marcadamente capitalista: a imagem. O britânico Jonathan Spence, especialista em China da Universidade de Yale, considera que a substituição do conceito de ¿ascensão pacífica¿ pelo de ¿desenvolvimento pacífico¿ mostra que os líderes não querem hostilizar os Estados Unidos: ¿A China certamente está aprendendo sobre relações públicas.¿ Sem prever grandes mudanças, ele acredita no reforço da formação dos líderes em assuntos como economia e administração, para percorrer o ¿longo caminho para ser um país unificado e coerente.¿

O sr. espera uma grande mudança em termos da liderança política e da administração econômica na China após o congresso do PC?

Isso é especulação. A liderança é formada basicamente por engenheiros. Minha opinião é que este congresso deve ir mais na direção de que os novos líderes sejam treinados em temas como economia, gerenciamento ou administração. Eles devem dar mais atenção a questões como comércio internacional e sistema bancário.

Qual grupo tem maior chance de prevalecer nessa disputa: o representado pelo presidente Hu Jintao ou a denominada ¿Princesa Vermelha¿ de Xangai?

Acredito que haja tensão entre os dois grupos. Hu Jintao não se mostrou tão confiante quanto alguns imaginavam. Deve haver concessões ao ¿grupo de Xangai¿ e acho que muitas caras novas aparecerão, como quando Hu e seu grupo surgiram.

A atual liderança do PC cresceu sob o impacto da Revolução Cultural nos anos 60 e 70 e do massacre de Tiananmen, em 1989. Quais as conseqüências disso na formação dos novos líderes?

A nova liderança era jovem demais na Revolução Cultural. Acredito que haverá agora uma abordagem mais pragmática em relação ao futuro e uma menor preocupação com as tradições revolucionárias.

O principal desafio do país no futuro é acabar com a diferença social entre os centros urbanos e as áreas pobres no interior. Como a China lida com essa questão?

Desde o século 16, vários governos tentaram lidar com a diferença de riqueza entre a Costa Leste e o interior - incluindo o de Mao Tsé-tung. Acho que o abismo social é enorme, mas não estou certo de que seja a questão mais importante, pois existem outros problemas, como os ambientais, relacionados à poluição e à água, além da questão da distribuição de terra no interior.

De todos esses problemas, qual será a principal questão a ser discutida no congresso?

Acho que será a harmonia nos discursos públicos. Há um esforço para evitar qualquer desacordo entre a liderança e as pessoas, fazendo a distinção que Mao costumava fazer. Por exemplo: a idéia de ¿ascensão pacífica¿ está sendo substituída por ¿desenvolvimento pacífico¿, pois ¿ascensão¿ poderia parecer hostil em relação aos EUA. A nova expressão é mais conciliatória, pois ¿desenvolvimento¿ dá a idéia de algo coletivo. A China certamente está aprendendo sobre relações públicas e se esforçando para manter sua posição forte e continuar seu desenvolvimento pacífico.

O sr. concorda que este congresso será o mais importante das últimas décadas?

Sim, possivelmente. A maior mudança na liderança chinesa foi em 1978, 1979. Acredito que esta será mais importante ainda por ser uma mudança na direção do partido, na estratégia de investimentos e na questão da terra.

O sr. acredita que a China está finalizando a transição para a modernidade ou é cedo para prever o futuro do país nas próximas décadas?

Acho que ainda é muito cedo para saber. As pessoas rejeitam o significado do que costumava ser chamado de modernidade. Agora, elas olham para outros aspectos econômicos, acesso a bens sociais, amplas políticas internacionais. A China ainda tem um longo caminho a percorrer para ser um país unificado e coerente. O país ainda responde a crises, em vez de ter um planejamento de longo prazo.