Título: Investidor ainda vê entraves, mas reconhece que País já dá segurança
Autor: Viana, Estela
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/10/2007, Nacional, p. B4
Espanhóis também citam exemplos de companhias bem-sucedidas no Brasil, como é o caso da Telefônica
O empresariado espanhol reconhece no Brasil uma oportunidade de expandir e internacionalizar seus negócios. Para António Del Corro, diretor-executivo da Câmara de Comércio do Brasil na Espanha, apesar de certos entraves à implantação de uma empresa em território brasileiro, o empresário espanhol ¿está muito certo da segurança de se investir no País¿.
A credibilidade é, sem dúvida, a palavra mágica para o investidor espanhol. Sem certas garantias, como a segurança jurídica e o entendimento da realidade das empresas estrangeiras, por parte do governo, os investimentos seriam talvez mais tímidos.
¿Há alguns anos, era muito difícil participar de qualquer licitação no Brasil, já que as exigências paralisavam os negócios.¿ Segundo Del Corro, as empresas espanholas normalmente têm níveis de endividamento altos, que impediam muitas de participar das privatizações. ¿Ter muitas dívidas não significa ter pouca solvência. É absolutamente normal na Europa, porque os juros são muito baixos.¿
Tomás González, diretor internacional da companhia Engenharia Idom, garante, além disso, que a chave é a competitividade. ¿Na questão das concessões de estradas, das 11 principais empresas no mundo, 7 são espanholas.¿ Ele se refere a nomes como Sacyr, FCC, Acciona, ACS e OHL - maior vencedora do leilão de rodovias federais da semana passada -, que costumam fazer lances mais arriscados no mercado internacional para obter novas concessões. ¿E, no caso do Brasil, o interesse em entrar no mercado é ainda maior, haja vista o desempenho de companhias como a Telefônica¿, diz. ¿Quem diria que o Brasil teria hoje a mesma importância para o grupo que a Espanha tem?¿
O exemplo de empresas bem-sucedidas é outro fator de incentivo. ¿Todos os investimentos que deram certo, e não são poucos, são fundamentais para atrair novos empresários e fortalecer a confiança no Brasil¿, diz Cássio Romano, vice-presidente da Câmara de Comércio do Brasil na Espanha. ¿E no quesito infra-estrutura, a Espanha tem muita experiência e projetos recentes, como o trem de alta velocidade (AVE) e o novo terminal do Aeroporto de Barajas (em Madri), que lhe dão as condições ideais para assumir investimentos nessa área.¿
Nos últimos 21 anos, após a entrada da Espanha na União Européia, o país se desenvolveu de maneira impressionante no setor de infra-estrutura. Em parte, graças ao Fundo de Coesão, um instrumento financeiro criado com o objetivo de reforçar a economia dos Estados membros, e, por outro lado, à prioridade que o governo espanhol tem dado à construção e modernização de portos, aeroportos, estradas e transporte (o Plano Estratégico de Infra-Estrutura do Transporte prevê investimentos de 242 bilhões, de 2005 a 2020). Com tamanho know-how, é compreensível que o empresário espanhol seja um forte competidor, o que explica de algum modo o desempenho da concessionária de rodovias Obrascón Huarte Laín (OHL) no leilão realizado na terça-feira da semana passada na Bolsa de Valores de São Paulo.
OUSADIA
No leilão, o empresariado brasileiro foi surpreendido por mais uma ousada investida espanhola. A OHL arrematou cinco de sete trechos de rodovias federais ofertados pelo governo - exatamente os mais apetitosos. Destacam-se as rodovias Régis Bittencourt (BR-116), entre São Paulo e Curitiba, e Fernão Dias (BR-381), entre Belo Horizonte e São Paulo. Sem falar nos 382,3 km que ligam Curitiba a Florianópolis e englobam as rodovias BR-116, BR-376 e BR-101; mais os 320,1 km da BR-101 no Estado do Rio de Janeiro; e 412,7 km da BR-116 entre Curitiba e a divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul.
Na oferta, o mais surpreendente para alguns foi o deságio nas tarifas, entre 39,35% e 65,43% sobre o teto fixado, sendo a mais barata de R$ 0,997, na Fernão Dias.
Ainda que pareçam agressivos, os lances foram bastante sensatos, na opinião de José Carlos Ferreira de Oliveira Filho, presidente da subsidiária da OHL no Brasil, que aposta na solidez da economia brasileira. Após o leilão, a situação do grupo espanhol, que já tinha a concessão de quatro estradas no interior paulista, passa a ser ainda mais confortável.
A OHL já administra 1.147 km no interior de São Paulo, sendo a Intervias - uma malha viária de 376 km que conecta Piracicaba, Limeira, Araras e São Carlos - a mais movimentada. Por ela, circulam 67 mil veículos por dia. Outras sob seu controle são a Centrovias, de 218 km, por onde passam diariamente 28,5 mil veículos; Autovias, com 316 km e 31 mil veículos por dia; e a Vianorte, com 237 km e 40 mil veículos por dia.
A partir do leilão de terça-feira, a OHL passará a controlar a mais extensa malha rodoviária sob gestão privada no Brasil, com 3.225,8 km. Com isso, o Brasil se torna o primeiro país em volume de vendas e o primeiro em quilômetros administrados da empresa.
E, como se não bastasse o domínio da OHL no leilão, outra empresa espanhola que levou uma parte do bolo foi a Acciona, com sede em Madri. Juntas, elas abocanharam 2.278 km de estradas nas Regiões Sul e Sudeste do país, de um total de 2.600 km leiloados. A única brasileira a vencer na disputa foi a BR Vias, que levou o trecho de 321 km da BR-153, a Rodovia Transbrasiliana.
O resultado do leilão marca, assim, uma nova fase de expansão dos investimentos espanhóis no Brasil. Também na semana passada, outro anúncio que ratificou o apetite dos investimentos espanhóis no País foi a compra do Banco Real pelo Santander. Considerado o negócio do ano, colocará o Santander na terceira posição do mercado financeiro brasileiro, um grupo que já acumula ativos de R$ 123,61bilhões e 7,4 milhões de clientes.
Outras empresas espanholas já se mostram motivadas a apostar no Brasil, sobretudo depois da segunda visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Madri, em 17 de setembro. ¿O fato de ter se reunido recentemente com cerca de 400 empresários espanhóis foi muito importante, uma vez que agora muitos deles vêem com grande interesse investir no Brasil com as possibilidades que surgem com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)¿, afirma Del Corro.
Dados do Ministério da Indústria, Turismo e Comércio não deixam dúvida: a Espanha entrou mesmo de cabeça no Brasil. De 1993 a junho deste ano, investiu 36,44 bilhões no País. Na América Latina, a segunda região que mais atrai negócios espanhóis, depois da Europa, a Espanha injetou no mesmo período 112,36 bilhões, em setores como telecomunicações, finanças e extração de derivados de petróleo e gás natural. Nesses 14 anos, dos países latino-americanos, a Argentina foi o segundo destino, recebendo 31,63 bilhões, seguida pelo Chile, com 11,49 bilhões.