Título: Receita e PF investigam fraudes em outras múltis
Autor: Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/10/2007, Economia, p. B3

Segundo fontes, outras empresas adotam esquema de subfaturamento semelhante ao da Cisco; também há indícios de envolvimento da matriz

Além da Cisco Systems, gigante americana do ramo de informática atingida pela operação Persona, outras multinacionais instaladas no Brasil também são alvo de investigações da Receita Federal e da Polícia Federal pela prática de subfaturamento nas importações.

Essas empresas, segundo fontes envolvidas nas investigações, têm modus operandi semelhante ao flagrado no caso que envolve a Cisco, incluindo o uso de laranjas para ocultar as irregularidades. ¿Imagina a confusão que está dando no meio empresarial com a operação Persona¿, disse uma fonte.

Segundo esse interlocutor, as investigações trouxeram indícios contundentes do envolvimento no esquema de fraude não só da filial da Cisco no Brasil como também da matriz da empresa nos Estados Unidos. ¿A ligação da filial brasileira com a distribuidora Mude ficou muita clara no âmbito do processo investigativo. Os indícios de conhecimento da matriz também são fortes.¿ Mas a empresa está responsabilizando a importadora Mude pelas irregularidades. ¿Eles (a Cisco) vão jogar a culpa toda na distribuidora¿, afirmou a fonte.

As grandes empresas clientes da Cisco no Brasil serão investigadas a partir de agora, mas os investigadores afirmam que será muito difícil provar a participação delas no esquema para que respondam criminalmente pela fraude. ¿No máximo, vamos alcançá-las na parte tributária para que paguem o IPI devido¿, ressaltou.

A Cisco detém cerca de 80% do mercado de serviços e equipamentos de alta tecnologia para redes corporativas. Ela tem grandes clientes como compradores, entre eles, o governo federal, a Embratel, Brasil Telecom e instituições financeiras.

De acordo com os investigadores, o grupo montou 13 empresas laranjas, com sócios de baixo pode aquisitivo e também empresas offshore, localizadas em paraísos fiscais como Panamá, Bahamas e Ilhas Virgens Britânicas. Os laranjas tinham conhecimento das irregularidades, mas nenhum foi preso por decisão do juiz do processo. O grupo usava uma ou outra empresa laranja, conforme a necessidade da ocasião.

As investigações apontam o ex-presidente da Cisco, Carlos Roberto Carnevalli, como o mentor do esquema. Ele foi um dos presos na operação. O atual presidente da empresa, Pedro Ripper, que também foi preso, tinha conhecimento do esquema e, segundo as fontes, estava inclusive querendo aumentar a margem de superfaturamento dos softwares, produto sobre o qual não incidem tributos aduaneiros.

A Receita e PF também vão ampliar as investigações no Pólo de Informática de Ilhéus, na Bahia, onde o esquema se beneficiava de isenção do ICMS. Durante as investigações, foram detectadas irregularidades em série. ¿A empresa laranja do esquema da Cisco em Ilhéus era considerada por lá a mais séria do Pólo¿, disse uma fonte.

VAZAMENTO

A PF e a Receita tiveram de acelerar a operação porque um dos auditores aposentados preso na operação teve conhecimento das investigações. Ele já estava sendo investigado pela Corregedoria da Receita. O risco de um vazamento maior poderia comprometer o resultado da operação, considerada um marco importante pelo porte da empresa e sofisticação do esquema.