Título: Declaração racista de Nobel causa indignação
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Fonte: O Estado de São Paulo, 19/10/2007, Vida&, p. A24

Museu inglês cancela palestra de James Watson, premiado em Medicina

O Museu de Ciência de Londres cancelou um debate com o Prêmio Nobel de Medicina James Watson, pioneiro no trabalho de deciframento do genoma humano, após a polêmica criada por seus comentários racistas.

O pesquisador americano, de 79 anos, declarou no fim de semana ao jornal britânico The Sunday Times que era pessimista sobre a África e criticou as políticas ocidentais. ¿Elas se baseiam na crença de que a inteligência dos africanos é como a nossa, o que todos os testes negam¿, disse. Ontem, Watson pediu ¿desculpas sem ressalvas¿. Mas logo emendou uma tentativa de defesa: ¿Não posso entender como poderia ter dito o que fui citado como tendo declarado. Não há base científica (para essa declaração).¿

Em 1997, Watson declarou a um jornal britânico que uma mulher deveria ter direito de abortar se um teste pré-natal determinasse que o seu filho seria homossexual.

O Museu de Ciência, uma das instituições científicas mais importantes do Reino Unido, justificou a decisão afirmando que Watson ¿cruzou a linha do debate aceitável¿, informou ontem a imprensa britânica.

¿Sabemos que cientistas eminentes podem dizer às vezes coisas que podem causar controvérsia, e o Museu de Ciência não suprime o debate de assuntos polêmicos. No entanto, sentimos que o doutor Watson ultrapassou a linha do debate aceitável e por isso cancelamos o ato¿, informou a instituição.

Watson deveria participar de um evento hoje. Ele chegou à Inglaterra para lançar seu último livro, Avoid boring people: lessons from a life in science (Evite pessoas chatas: lições de uma vida de ciência). Estão programados atos nas Universidades de Oxford e de Cambridge.

A Federação de Cientistas Americanos declarou-se indignada ontem com as afirmações racistas de Watson. ¿Num momento em que a comunidade científica se sente ameaçada por forças políticas que tentam diminuir sua credibilidade, é trágico que um dos membros mais eminentes da ciência moderna desonre assim a profissão¿, disse, em comunicado, Henry Kelly, presidente da entidade.

1962, Watson recebeu o Nobel de Medicina com o britânico Francis Crick e o neozelandês Maurice Wilkins, por sua participação na equipe que descobriu a estrutura do DNA.