Título: Cristina quer pacto de crescimento
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/10/2007, Internacional, p. A16

Kirchner buscam acordo com empresários e sindicalistas para conter a inflação e garantir investimentos

A presidente eleita da Argentina, Cristina Kirchner, o presidente Néstor Kirchner e um grupo de assessores do governo estão preparando um abrangente pacto social com o qual esperam proporcionar uma base sólida para que a economia do país siga crescendo. Nos últimos quatro anos, o PIB argentino cresceu 49%.

A ambição dos Kirchners, segundo analistas, é obter um compromisso semelhante ao Pacto de Moncloa - o acordo entre partidos políticos, sindicatos e empresários alcançado no final da década de 80 na Espanha que permitiu que o país se desenvolvesse economicamente.

A idéia do casal presidencial é fechar o pacto pelo menos até o Natal. Na pior das hipóteses, adiar seu lançamento para o começo do ano que vem. O acordo implicará uma dura negociação para influenciar duas variáveis cruciais para o atual momento da economia argentina: aumento de preços e salários.

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) já antecipou que espera aumentos salariais de 30%. O governo, a pedido dos empresários, tenta limitar os reajustes na faixa dos 13%. A CGT argumenta que, para aceitar esse nível de aumento, a inflação não poderia passar dos 6,5% em 2008.

Segundo economistas independentes, a inflação real em 2007 ficará na faixa dos 20% - embora o governo assegure que o índice não passará dos 10%.

Para que o pacto dos Kirchner funcione, os sindicatos terão de declarar uma prolongada trégua de greves, enquanto os empresários terão de se comprometer com a não aumentar preços.

Para agradar aos sindicalistas, os Kirchners apoiaram líderes sindicais na eleição para a prefeitura de dois importantes municípios da Grande Buenos Aires: Quilmes e Tres de Febrero. Ambos foram eleitos.

Outro ponto do pacto seria o compromisso dos empresários de intensificar investimentos na área produtiva. Os empresários, nesse caso, esperam que o governo lhes garanta que não haverá colapsos energéticos, como os que ocorreram entre maio e agosto.

Para estimular os investimentos no setor energético, o governo está preparando a liberação parcial das tarifas dos serviços públicos privatizados, congelados desde 2002.

O plano dos Kirchners para 2008 - e, se possível, para os dois anos seguintes - é definir um cenário no qual a inflação seja contida e ao mesmo tempo, a economia cresça. O governo tenta garantir um horizonte amigável de longo prazo para que o capital nacional e estrangeiro possa planejar seus investimentos no país.

Para respaldar as medidas, o governo contará a partir de 10 de dezembro com ampla maioria tanto na Câmara de Deputados e no Senado.

Os empresários da União Industrial Argentina (UIA), entidade fortemente alinhada com Kirchner, já batizaram o pacto com o nome formal de 'Acordo Econômico e Social'.

Os produtores agropecuários - que mantiveram duros confrontos com Kirchner ao longo dos últimos dois anos - também esperam ser convocados para o pacto.

POBRES E RICOS

A eleição presidencial argentina marcou uma divisão social que havia décadas não se registrava. Enquanto na capital e nas grandes e ricas cidades do centro da Argentina os votos foram majoritariamente destinados à oposição, especialmente a Elisa Carrió, líder da centro-esquerdista Coalizão Cívica, no cinturão industrial da Grande Buenos Aires e nas empobrecidas províncias do norte e nordeste a maior parte dos votos foi para Cristina.

Ela obteve 44,9% dos votos em todo o país, segundo a apuração definitiva. Elisa ficou com 22,9%.

Uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública indicou que Cristina foi majoritariamente votada pelos pobres e jovens entre 18 e 34 anos, além dos habitantes das cidades pequenas.