Título: Inflação freou queda da Selic
Autor: Lu Aiko Otta
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/10/2007, Economia, p. B5
Consumo em alta, gastos do governo e investimento baixo preocupam BC
Consumo em alta, investimentos ainda baixos e a perspectiva de aumento nos gastos públicos, agravada pela chegada do ano eleitoral, foram as principais causas que levaram o Comitê de Política Monetária (Copom) a interromper a seqüência de cortes na taxa de juros (Selic), que durou 25 meses. Também tiveram peso a crise financeira internacional e a alta nos preços do petróleo e dos alimentos no mundo inteiro.
Todos esses fatores aumentam o risco de alta da inflação em 2008. Por prudência, os diretores do Banco Central (BC), que integram o Copom, decidiram fazer uma pausa nos cortes dos juros. Por quanto tempo é algo que a ata da reunião na qual a Selic foi mantida em 11,25% ao ano não revela. A ata foi divulgada ontem pelo BC.
Economistas como José Francisco Lima Gonçalves, do Banco Fator, acham que os cortes serão retomados em abril de 2008. Fernando Montero, economista-chefe da Corretora Convenção, também acredita que será em março ou abril. O coordenador de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, avalia que a pausa não será curta. Mais otimista, o economista Francisco Pessoa Faria, da consultoria LCA, acha que os cortes poderão ser retomados já em dezembro.
A ata explica que a pausa é necessária para avaliar os efeitos dos cortes nos juros nos últimos meses sobre a economia. Segundo o documento, os diretores do BC interromperam os cortes até terem mais claro o que acontece com a inflação, quando a queda dos juros é combinada com outros elementos que pressionam os preços.
O BC avalia como preocupante o fato de a indústria ter batido recorde na utilização de sua capacidade instalada em agosto, quando chegou a 83,6%. Significa que, se o consumo continuar em alta, a produção industrial pode bater no teto. No limite, podem faltar produtos, abrindo espaço para remarcações. Os diretores reconhecem que a indústria vem investindo para ampliar a capacidade de produção, mas temem que isso não ocorra no tempo e volume suficientes.
Os dados coletados pelo BC indicam que o consumo deve mesmo continuar elevado. De janeiro a agosto, informa a ata, a massa salarial real cresceu 6,8% ante 2008. Acompanhando esse movimento, as vendas cresceram 9,7% de janeiro a julho, em relação a igual período de 2006. 'Ao longo dos próximos meses, o crescimento do crédito e a expansão da massa salarial real devem continuar impulsionando a atividade econômica', diz o documento.
PERIGOS À VISTA
As razões do Copom para a pausa da queda dos juros
Investimento não dá conta do consumo
'Embora o volume de investimento venha contribuindo para retardar a elevação das taxas de utilização da capacidade, ele não tem sido suficiente para evitar que essas se mantenham em níveis historicamente elevados, os quais, no passado, coincidiram com períodos de aceleração inflacionária.'
Crise não acabou
'Ainda que os efeitos mais intensos da eclosão da crise no segmento de alto risco do setor imobiliário dos Estados Unidos (EUA) sobre os mercados financeiros pareçam ter sido superados, permanece um quadro de incerteza.'
Petróleo sobe e preocupa
'O preço do petróleo, fonte
sistemática de incerteza advinda do cenário internacional, que permanecia em níveis historicamente elevados nos últimos meses, teve incremento adicional importante desde a última reunião do Copom.'
Inflação é ameaça no mundo
'Os principais índices de preços de matérias-primas apresentaram tendência altista nas últimas semanas. Nesse contexto, deve-se destacar a forte aceleração no preço dos alimentos que vem sendo observada em vários países, que tem dificultado o controle da inflação por parte de diversos bancos centrais.'
Risco de volta da inflação
'Ainda que permaneçam consistentes com a trajetória de metas, as perspectivas para a inflação estão cercadas por maior incerteza.'
Consumo vai continuar em alta
'Ao longo dos próximos meses, o crescimento do crédito e a expansão da massa salarial real devem continuar impulsionando a atividade econômica.'
Governos também vão pressionar
'A esses fatores de sustentação da demanda devem ser acrescidos os efeitos da expansão das transferências governamentais e de outros impulsos fiscais esperados para os próximos meses deste ano e para 2008.'
Por isso, juros pararam de cair
'A prudência passa a ter papel ainda mais importante, dentro desse processo, em momentos, como atualmente, nos quais a deterioração do balanço dos riscos inflacionários reduz a margem de segurança da política monetária.'
'(...) o Copom resolveu fazer uma pausa no processo de flexibilização da política monetária.'