Título: PF apura vazamento de informação no Caso Cisco
Autor: Godoy, Marcelo., Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/10/2007, Economia, p. B10
Documentos da operação foram achados com diretor da Mude, o mesmo que foi flagrado em grampo conversando sobre doação ao PT
Um vazamento de informações quase pôs a perder a Operação Persona. Os investigadores do caso ainda não sabem o tamanho do prejuízo causado às apurações, mas o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal estão atrás de quem forneceu as informações sigilosas sobre a operação a integrantes do esquema de fraude e sonegação fiscal que deu um prejuízo de R$ 1,5 bilhão ao governo. Também querem saber se elas saíram de dentro do governo federal.
Entenda a Operação Persona
O vazamento foi descoberto depois que os agentes federais encontraram documentos sobre a operação no escritório do advogado José Roberto Pernomiam Rodrigues, diretor de operações e finanças da empresa Mude Comércio e Serviços. Pernomiam é o mesmo homem que foi flagrado no do fim do primeiro semestre deste ano em interceptações telefônicas da PF falando sobre uma doação de R$ 500 mil ao PT.
Em uma conversa com Fernando Grecco, outro diretor da empresa, Pernomiam trata da necessidade de se acertar 'valores e data' de um negócio de Carlos Roberto Carnevali, ex-presidente da Cisco no Brasil e suspeito de estar por trás da Mude, 'com um representante do PT'. Carnevali está preso.
Por causa da localização desse material com Pernomiam, o juiz Alexandre Cassetari, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, prorrogou a prisão do advogado por mais cinco dias - o prazo vence amanhã. À PF, o advogado teria dado duas versões de como obteve as informações. Primeiro, disse que chegaram em um e-mail e, depois, que lhe foram entregues por outro advogado.
Havia pelo menos quatro meses os investigadores sabiam da possível relação da Mude com representantes do PT ligados à Caixa. Nas conversas interceptadas, os diretores da Mude relacionam a doação ao partido a uma licitação de equipamentos para o banco - o dinheiro pagaria o favorecimento à Mude. Greco, Pernomiam e Carnevali não citam, nas conversas, o nome de quem seria o 'representante do PT'.
Foi justamente o receio de que a operação vazasse, caso tomassem providências contra a suposta fraude na licitação, que fez com que os procuradores da República Priscila Schreiner e Marcos José Gomes Correia e a delegada da PF Erika Nogueira resolvessem deixar para mais tarde a apuração desse crime. Além disso, a suposta fraude na licitação do banco não teria ligação direta com o esquema de sonegação, cujos beneficiários seriam a Cisco Systems Inc e a sua filial brasileira, a Cisco do Brasil Ltda. É isso o que explicaram ontem, por meio de nota, os procuradores.
A nota diz que, 'na época em que os tais diálogos' entre os executivos surgiram, 'foi decidido que as investigações a respeito de fatos que não tivessem ligação com a fraudes em importações seriam apuradas assim que as diligências da Operação Persona fossem desencadeadas'. Apesar de as interceptações terem continuado, nenhum outro diálogo sobre a Caixa foi flagrado.
O caso da Caixa será enviado à Justiça Federal em Brasília, sede do banco. Em São Paulo, porém, ficará a apuração sobre o vazamento. O Estado procurou o criminalista Arnaldo Malheiros Filho, que defende Carnevali, mas não o encontrou. Já o criminalista Edson Junji Torihara, que defende Grecco, afirmou desconhecer a nova suspeita contra seu cliente.