Título: Maioria das crianças que ONG tentou levar não é órfã
Autor: Reuters
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/11/2007, Internacional, p. A17

Segundo a ONU, 91 dos 103 meninos e meninas com idades entre 1 e 10 anos disseram a agências humanitárias no Chade que viviam com suas famílias

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) afirmou ontem que a maioria das 103 crianças africanas que a ONG francesa Arca de Zoé tentou retirar do Chade não é órfã, ao contrário do que alegara o grupo. Segundo uma porta-voz do Acnur no Chade, informações surgidas em entrevistas feitas com as crianças por agências da ONU e pela Cruz Vermelha contradisseram afirmações da Arca, que as descreveu como órfãs doentes e miseráveis de Darfur, região sudanesa em guerra civil. ¿Elas não são órfãs e não estavam sozinhas no deserto no Chade¿, disse Annette Rehrl, do Acnur. ¿Elas viviam com suas famílias em comunidades.¿

Nove cidadãos franceses (seis membros da Arca e três jornalistas) foram presos na semana passada em Abéché, no leste do Chade, quando tentavam levar as crianças para a Europa de avião. Os nove foram acusados de rapto e fraude e podem ser condenados a 20 anos de trabalhos forçados. Sete tripulantes espanhóis do avião fretado pela ONG, um piloto belga e pelo menos dois chadianos também foram detidos e acusados como cúmplices. O presidente chadiano, Idriss Déby, disse ontem esperar que os espanhóis e os jornalistas franceses sejam libertados.

Funcionários do Acnur, do Fundo da ONU para a Infância (Unicef) e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha cuidam das crianças - 21 meninas e 82 meninos com idades entre 1 e 10 anos - num orfanato de Abéché. Eles fazem perguntas sobre suas famílias e locais de origem.

¿Em entrevistas com funcionários de grupos de ajuda humanitária, 91 crianças disseram que estavam morando com suas famílias, formadas por pelo menos um adulto que elas consideram seu pai ou sua mãe¿, afirma um comunicado conjunto da ONU e da Cruz Vermelha. Crianças que perdem os pais na África freqüentemente são adotadas por outros parentes. As entrevistas indicaram que 85 crianças vieram de vilas nas regiões de Adre e Tine, no leste do Chade, na fronteira com Darfur. O comunicado não informa se elas são chadianas ou sudanesas.

Algumas crianças já tinham dito a jornalistas que seus pais estavam vivos e assinalado que elas haviam sido atraídas para fora de suas vilas, na fronteira entre Chade e Sudão, com ofertas de doces. A Arca de Zoé afirmou que pretendia entregar órfãos de Darfur a famílias adotivas francesas, invocando seu direito de fazê-lo sob a lei internacional. Algumas famílias disseram ter pago mais de 2 mil à ONG.

O conflito em Darfur, iniciado há quatro anos, levou violência e refugiados até o leste do Chade. Cerca de 400 mil refugiados sudaneses e civis chadianos deslocados estão em acampamentos administrados pela ONU.

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