Título: Parceria estratégica
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/11/2007, Notas e Informaçoes, p. A3
Brasil e Estados Unidos são parceiros naturais de comércio, pelo tamanho das duas economias, pela escala de produção e pela proximidade, disseram os participantes do Fórum de CEOs (executivos principais) depois de reunião em Brasília, no mês passado. A conclusão, não menos importante por ser uma obviedade, foi mencionada pelo embaixador americano Clifford Sobel numa entrevista ao jornal Valor. Os dois países deveriam aproveitar o bom momento da economia mundial, disse o embaixador, para ampliar e fortalecer a parceria comercial, embora a prioridade, neste momento, seja a conclusão da Rodada Doha. O governo brasileiro está preparado para conversar sobre iniciativas para expansão do comércio, disse em Genebra o chanceler Celso Amorim, consultado no dia seguinte sobre o assunto. Resposta meramente protocolar ou as autoridades de Brasília estarão dispostas, afinal, a explorar seriamente as possibilidades de acordos comerciais com a maior economia não só das Américas, mas do mundo?
A idéia de uma parceria estratégica entre Estados Unidos e Brasil começou a ganhar algum conteúdo concreto, recentemente, com o acordo de cooperação no setor de biocombustíveis. O entendimento foi anunciado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush no primeiro semestre. Mas a iniciativa não teve conseqüência, até agora, no campo do comércio bilateral. O governo dos Estados Unidos continua mantendo barreiras comerciais a vários produtos brasileiros e as possibilidades de um comércio mais aberto permanecem na dependência da Rodada Doha.
A maior oportunidade surgida em muito tempo, a negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), foi desperdiçada, primeiro porque o governo petista se dedicou a torpedear o projeto, depois porque o governo americano perdeu interesse no empreendimento. As autoridades de Washington deram prioridade, a partir daí, à discussão de acordos de livre-comércio com vários países centro e sul-americanos, pondo de lado a idéia de um entendimento com o Mercosul.
O presidente Lula vangloriou-se, há alguns anos, de haver tirado a Alca da pauta - palavras dele. O Itamaraty passou a alardear o crescimento do comércio com a América Latina quando as exportações brasileiras para a região superaram as vendas dirigidas ao mercado americano. Essas vendas continuaram a crescer e também isso foi apontado pelas autoridades brasileiras como prova do acerto de sua política. Mas esse discurso contou apenas uma parte da história. Os exportadores brasileiros apenas conseguiram manter, no mercado americano, a participação já obtida até 2003, com pequenas variações. O Brasil deixou de aproveitar o enorme crescimento das importações americanas, e o espaço adicional foi ocupado por produtos de outros países, principalmente da China.
Como sócio do Mercosul, o Brasil não pode, isoladamente, negociar um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos - nem com a União Européia ou qualquer outro parceiro. Em conjunto, os quatro sócios originais do Mercosul também terão novos problemas para conduzir negociações, se for finalmente aprovada a incorporação da Venezuela, defendida pelo Executivo brasileiro.
Se o governo brasileiro finalmente decidir negociar maior abertura no comércio com os Estados Unidos, fora da Rodada Doha, terá de buscar entendimentos parciais. Poderá tratar de facilitação de negócios e também da melhora de acesso para alguns setores, mas com as limitações impostas por sua condição de membro de uma união aduaneira, o Mercosul. Mesmo com essas limitações, pode haver boas oportunidades para expansão do intercâmbio, tanto de bens quanto de serviços, e os empresários mais envolvidos no comércio internacional poderiam ajudar o Itamaraty a identificá-las.
Muitas oportunidades foram desperdiçadas quando a diplomacia comercial brasileira trocou o pragmatismo pela fantasia de uma política voltada prioritariamente para a integração Sul-Sul. Nenhum outro grande emergente - a começar por China, Índia e África do Sul - fez uma opção semelhante, mas o governo do presidente Lula continua recusando-se a reconhecer esse dado fundamental. Essa fantasia já custou muito caro ao País.