Título: As más notícias de Bernanke
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/11/2007, Notas & Informações, p. A3

Não haverá recessão, mas a economia americana deverá crescer moderadamente em 2008 e uma sensível desaceleração já deve estar em curso neste final de ano. Esta avaliação - economia mais fraca, mas ainda em movimento - foi a parte mais otimista da fala do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, na quinta-feira, perante o Comitê Conjunto de Economia do Congresso americano. Embora com cuidado para evitar pânico, ele acabou pintando um quadro cheio de sombras. As perdas com hipotecas de segunda linha (subprime) podem chegar a US$ 150 bilhões, segundo sua estimativa. Além disso, a turbulência ocasionada pela crise das hipotecas não terminou. O mercado imobiliário poderá estabilizar-se no segundo trimestre de 2008, mas admitiu que esse prazo poderá ser maior. Como complemento, há risco de inflação mais alta, alimentada pelos preços do petróleo e pela depreciação da moeda americana.

Como de costume, ele prometeu um cuidadoso acompanhamento dos negócios e uma rápida intervenção do Fed,quando necessária, para evitar tanto uma alta abrupta de preços quanto um esfriamento excessivo da economia. Analistas não excluem, apesar da preocupação demonstrada em relação às pressões inflacionárias, um novo corte dos juros básicos, se aumentar o risco de recessão.

Os preços das ações caíram nas bolsas americanas durante a leitura do texto preparado por Bernanke, mas subiram depois da palestra, em seguida passaram a oscilar, enquanto ele respondia a perguntas de senadores e deputados, e voltaram a cair.

A fala de Bernanke não foi a única justificativa para as lufadas de pessimismo, no mercado financeiro, na tarde de ontem. Novas evidências dos estragos causados pela crise dos papéis subprime continuaram a aparecer. O Banco Morgan Stanley havia anunciado, na noite anterior, uma baixa contábil de US$ 3,7 bilhões, atribuída a perdas no mercado de hipotecas. Foi menor que as perdas admitidas pelo Grupo Merrill Lynch e pelo Citigroup, dias antes. Além disso, alguns dos informes divulgados pelas cadeias varejistas, com dados sobre as vendas de outubro, foram considerados decepcionantes. Essa retração das vendas está relacionada a prejuízos causados diretamente pela crise das hipotecas que explicam uma atitude mais cautelosa dos consumidores.

No conjunto, a fala de Bernanke não trouxe grande novidade em relação aos cenários apresentados nos últimos documentos do Comitê Federal de Mercado Aberto (equivalente americano do Copom) ou em palestras de executivos do Fed. Mas houve uma atualização do cenário, com base em números divulgados nas últimas semanas - e a mensagem reforçou as preocupações.

Os dados conhecidos depois da última reunião do Comitê de Mercado Aberto, disse Bernanke, mostraram uma economia resistente e flexível, mas confirmaram também a instabilidade e as tensões no mercado financeiro. Novas informações sobre a evolução dos ativos vinculados a hipotecas elevaram as preocupações com as condições de crédito e com os efeitos da crise imobiliária no crescimento econômico, disse Bernanke. Além disso, fortes aumentos do preço do petróleo criaram pressões inflacionárias ¿e podem impor nova restrição à atividade econômica¿. Há, nessa fala, suficientes elementos para espalhar preocupações em todo o mundo, apesar da promessa de novas ações do Fed ¿para promover a estabilidade de preços e o crescimento econômico sustentável¿.

Afinal, os efeitos da crise poderão ir muito além da estabilização do mercado imobiliário, prevista por Bernanke, muito cautelosamente, para o segundo trimestre de 2008. Os problemas das pessoas endividadas com hipotecas não terminarão por aí. Até o fim do próximo ano, disse Bernanke, haverá, em cada trimestre, cerca de 450 mil hipotecas subprime sujeitas ao primeiro reajuste de juros. A mera execução das dívidas apenas contribuirá para agravar o sofrimento e o mais prudente, segundo ele, será buscar mecanismos de renegociação.

A economia americana tem uma forte capacidade de reação, insistiu Bernanke, tentando criar um contraponto às más notícias. Não parece ter tido grande sucesso.