Título: Indústria cerâmica congela planos
Autor: Brito, Agnaldo
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/11/2007, Economia, p. B6

Por falta de gás, pólo de Santa Gertrudes não crescerá em 2008

Sem gás natural para manter o crescimento de 10% ao ano, o Pólo Cerâmico de Santa Gertrudes, responsável por 65% da produção nacional de cerâmica de revestimento do País, se prepara para congelar investimentos em 2008. É o primeiro setor industrial brasileiro que faz um anúncio tão categórico em relação à falta do combustível. Neste ano, o Brasil vai produzir 650 milhões de metros quadrados de revestimento cerâmico, dos quais 420 milhões sairão dos fornos das indústrias da região de Santa Gertrudes.

Chamado a converter os fornos até então abastecidos com GLP (o gás de cozinha) para o gás natural - a partir de metade da década de 90, quando a Petrobrás e o governo federal propalavam as vantagens competitivas da novidade energética - , o setor ceramistas sente-se agora num beco, e o futuro depende da expansão da oferta. Não há alternativa ao gás natural. ¿Qual distribuidora de GLP vai investir numa nova estrutura para fornecer ao setor cerâmico?¿, pergunta João Oscar Bergstron Neto, presidente da Associação Paulista das Cerâmicas de Revestimento (Aspacer).

Segundo a associação, a indústria precisaria elevar o consumo de gás para 403 milhões de metros cúbicos ao longo de todo o próximo ano, 40 milhões de metros cúbicos a mais do que o consumo alcançado neste ano, período em que a expansão chegou a 11%, segundo estima a Aspacer. Não vai conseguir.

Algumas indústrias já foram intimadas pela Comgás a reduzir a produção por falta do combustível. A suspensão do fornecimento ocorre ainda sobre os contratos precários, considerados ¿sem garantia firme¿ de entrega. Ou seja, o fornecimento pode ser interrompido em caso de escassez, como ocorre agora. Os contratos com garantia firme não foram atingidos, mas a situação aborta qualquer necessidade de crescimento futuro. E perspectiva para tanto não falta.

O pólo é considerado o mais competitivo na produção de revestimento cerâmico. Diferente do pólo de Santa Catarina, o pólo paulista aproveitou uma oferta da natureza: jazidas enormes de uma argila que não necessita de preparação especial para produção das placas cerâmicas, o que reduz o custo com energia na fase inicial da produção.

A falta de nova oferta de gás deve interromper investimentos de R$ 100 milhões em dez novos fornos que deixarão de ser instalados no pólo no próximo ano. O Pólo Cerâmico de Santa Gertrudes é formado por 36 indústrias. ¿Era a nossa expectativa. Há vários anos estamos crescendo em média 10% por ano e em 2008 será o primeiro ano que não poderemos crescer nada por falta de gás. É algo realmente inacreditável¿, diz Bergstron Neto, que, além de presidente da associação, é também ceramista.

CONSTRUÇÃO CIVIL

A crise no fornecimento de gás natural ocorreu num péssimo momento. Além de se converter numa indústria exportadora nos últimos anos (as vendas neste ano devem alcançar 100 milhões de metros quadrados), o setor prepara expansão para atender a uma novíssima demanda que deve surgir a partir de 2008. O volume de recursos liberados neste ano para o setor da construção civil ampliará a demanda por cerâmica a partir de 2008, avalia a indústria.

Entre liberações do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), os recursos canalizados para a habitação até o fim deste ano devem alcançar os R$ 20 bilhões. Recursos para a construção de habitações que, em 2008, afirma o setor ceramista, poderão estar na fase final de acabamento, exatamente quando o construtor procura o revestimento. ¿A tendência com essa situação é de aumento de preço¿, avisa o industrial.

REDUÇÃO

¿Tivemos de diminuir o ritmo para não ter de demitir pessoas¿, disse Marco Diehl, da Incefra. Há quinze dias, a Comgás iniciou um corte no fornecimento de gás da empresa. ¿Deram uma semana para nos adaptarmos à redução.¿ Essa situação, segundo ele, terá conseqüências. Diehl não prevê um risco de desabastecimento, mas acredita que pode haver uma alta de até 15% no preço.

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