Título: Lula já fala em entrar na Opep e baixar petróleo
Autor: Otta, Lu Aiko
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/11/2007, Economia, p. B15

Presidente é tratado como sheik pelos demais presidentes presentes ao encontro em Santiago

A descoberta da megarreserva de petróleo na Bacia de Santos modificou o tratamento recebido pelo Brasil nos foros internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que foi tratado ¿com uma certa deferência¿ por seus colegas chefes de Estado que participaram, na capital chilena, da 17ª Cúpula Ibero-americana, encerrada ontem. ¿Veja, eu agora estou sendo chamado de sheik do petróleo¿, comentou, rindo.

As novas reservas, avaliou Lula, são uma ¿dádiva de Deus¿, pois aumentarão as chances de o Brasil engatar um período de crescimento econômico consistente. O País passa também a ter mais peso no cenário mundial. ¿É o coroamento de um País que esteve a ponto de desabrochar e muitas vezes murchava¿, disse ele. ¿Estamos vivendo um momento bom na economia e a descoberta de uma reserva excepcional, de petróleo de qualidade, de muito gás, coloca o Brasil numa situação altamente privilegiada.¿

O presidente já sonha até em influir nas políticas da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). ¿Vamos brigar para baixar o preço¿, anunciou Lula. O Brasil ainda não faz parte da entidade porque não é exportador líquido de petróleo. Mas a descoberta do novo supercampo, que elevará em 50% o volume das reservas petrolíferas brasileiras, permitirá que o País venda parte de sua produção e, nessa condição, se torne um membro da Opep.

Isso, porém, só ocorrerá depois de 2013, quando o novo campo começará a produzir. ¿Não será no meu governo¿, reconheceu Lula. ¿Obviamente que temos interesse de participar de um foro desse, em que se pode definir políticas para o mundo inteiro.¿ Ele acha que os países produtores devem receber um ¿preço justo¿ por sua produção, mas não devem enriquecer às custas das nações pobres e sufocar seu desenvolvimento.

Na véspera, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, havia proposto a criação da Petroamazônia, juntado os países exportadores de petróleo da região, e defendeu a redução dos preços. Segundo Chávez, tal proposta agora seria viável, já que Lula havia se tornado um ¿magnata petroleiro.¿

Lula disse que Chávez fez muitas brincadeiras. ¿Eu disse a ele que, antes de eu tirar um litro do meu petróleo, ele já tinha socializado o meu petróleo para a Petrocaribe. Deixa eu primeiro tirar um litro de petróleo pelo menos!¿

A provocação de Chávez teve resposta da presidente do Chile, Michelle Bachelet. ¿Ela brincou com ele e perguntou por que não reduziu o preço do gás na Opep¿, contou Lula. O Chile enfrenta o problema da escassez do gás, com o agravante que a Bolívia não quer lhe vender o combustível enquanto não lhe for assegurada uma ¿passagem soberana¿ para o Pacífico.

EVO MORALES

Em sua nova condição de sheik, Lula recebeu ontem o presidente da Bolívia, Evo Morales, para tratar da retomada dos investimentos naquele país. ¿Interessa ao Brasil, como maior país da América Latina, que a gente viva em clima de paz e harmonia com um país com uma extensão fronteiriça como tem a Bolívia com o Brasil¿, afirmou Lula. ¿Queremos ajudar a industrializar a Bolívia.¿

A retomada dos investimentos da Petrobrás naquele país, disse Lula, visam a garantir o abastecimento futuro de gás não só dos dois países, mas também de seus vizinhos Chile e Argentina. O presidente confirmou que estará em La Paz no dia 12 para retomar os acordos com o país. Ele quer levar uma delegação de empresários. Um dos projetos em estudo é a instalação de um pólo gás-químico na região de Corumbá (MS) e Puerto Suárez, do outro lado da fronteira. Também foi aprovada uma linha de financiamento de R$ 35 milhões para a compra de tratores pela Bolívia.

O presidente afirmou que a retomada dos investimentos na Bolívia nada tem a ver com sua relação pessoal com Evo. ¿Somos amigos, fomos dirigentes sindicais, mas a relação não é entre Evo e Lula. A relação entre o Brasil e a Bolívia tem de ser definitiva, duradoura, não pode terminar com o mandato do presidente.¿ Os contratos, afirmou, devem representar uma relação de Estados.

Sem entrar em detalhes sobre a conversa com Evo, Lula comentou que os dirigentes amadurecem em seu relacionamento com o mundo. ¿Todos aprendemos a ir melhorando nossas relações internacionais¿, disse.

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