Título: Procuradoria de MT vai à Justiça contra obra do PAC
Autor: Macedo, Fausto
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/11/2007, Nacional, p. A14

Projeto nem começou e Ministério Público já entrou com ação por ter identificado ¿irregularidades e vícios insanáveis¿ em editais de licitação

As obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Cuiabá, que nem saíram do papel, já estão sob suspeita do Ministério Público Federal e podem ser embargadas. A Procuradoria da República entro com ação civil na Justiça Federal, alegando ter identificado ¿irregularidades e vícios insanáveis, restrições que prejudicam a competitividade¿ em dois editais de licitação para saneamento básico.

A procuradoria pediu liminar para bloquear os recursos de execução do PAC e que a União se abstenha de realizar novos depósitos ou transferências. Também quer que a Prefeitura de Cuiabá suspenda as duas licitações do empreendimento, orçado em R$ 299,14 milhões. A maior parte do valor - R$ 246,14 milhões - será financiada pelo Ministério das Cidades, O dinheiro é repassado à prefeitura via Caixa Econômica Federal. A ação foi distribuída para a 5ª Vara Federal, mas ainda não há decisão.

As obras foram anunciadas pelo presidente Lula, que se deslocou em fins de julho até Mato Grosso, acompanhado dos ministros Márcio Fortes (Cidades) e Dilma Rousseff (Casa Civil). Na ocasião, Lula enfatizou que só 23% de Cuiabá e adjacências dispunham de rede de esgoto. O PAC, afirmou, permitirá que esse índice pule para 70%.

As suspeitas surgiram a partir de denúncia de uma construtora que questionou os editais das concorrências 01/2007 e 02/2007, sob responsabilidade da prefeitura. A procuradoria identificou pelo menos sete situações que colocariam o PAC de Cuiabá em xeque.

EXIGÊNCIAS

Um item é a ¿cumulação ilegal de exigências de qualificação¿. Os editais impõem que as licitantes, para demonstrar capacidade econômico-financeira, apresentem, cumulativamente, capital social mínimo e garantia de proposta. ¿É flagrantemente ilícito¿, afirmou o procurador Thiago Lemes de Andrade. Ele contesta a exigência de que as concorrentes sejam detentoras de certificado oficial do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade no Habitat. ¿A regra é excessiva.¿

Andrade reporta-se à manifestação do ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União (TCU), que concedeu medida cautelar para suspender a concorrência 01/2007. A jurisprudência do TCU, anotou o ministro, ¿tem considerado ilegal a exigência da apresentação (do certificado oficial) como requisito de habilitação em procedimentos licitatórios¿.

O ministro Fortes disse, por meio da assessoria, que a Caixa é responsável por operar os contratos do PAC com as prefeituras e governos estaduais. O banco cobra do ministério uma taxa de administração para acompanhar o processo. Segundo a equipe de Fortes, isso ajuda a evitar fraudes, pois os repasses só são executados depois do cumprimento de uma série de exigências.

José Antônio Rosa, procurador-geral de Cuiabá e presidente da Companhia de Saneamento da capital, refutou as suspeitas. ¿A maior preocupação é com a lisura dos certames. Não há irregularidades.¿ Ele disse que o prefeito Wilson Santos (PSDB) determinou a criação de um comitê popular de acompanhamento das obras.