Título: Mercado teme crise dos EUA e Bolsa retorna ao nível do fim de setembro
Autor: Mode, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/11/2007, Economia, p. B1

Ibovespa cai 3,12% e dólar sobe 1,1%, para R$ 1,824; Bolsa de Nova York recua 1,82% e Nasdaq perde 2,14%

Uma forte onda de aversão ao risco tomou conta dos mercados ontem e atingiu em cheio os principais ativos brasileiros. O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) perdeu 3,12% e retornou ao nível em que estava no fim de setembro. O dólar subiu 1,1%, para R$ 1,824, maior cotação desde 4 de outubro. O risco Brasil disparou quase 8% e alcançou 251 pontos, nível mais alto desde setembro do ano passado.

As bolsas americanas também não escaparam. O Índice Dow Jones caiu 1,83%, para 12.743 pontos, menor pontuação desde 13 de abril, e o índice da bolsa eletrônica Nasdaq desvalorizou 2,14%. O mercado acionário é considerado uma aposta de risco, ainda que nos EUA.

Em compensação, as taxas de juros pagas pelos bônus do Tesouro americano alcançaram o menor porcentual em mais de dois anos, o que se explica pela maior demanda pelos investidores. Os títulos de 10 anos encerraram o dia pagando 3,834% ao ano. Os bônus do governo dos EUA são considerados o melhor porto seguro do mercado e costumam ter forte procura em momentos de estresse.

Mais uma vez, o intenso vaivém se deveu aos temores em relação aos desdobramentos da crise das hipotecas de alto risco (subprime) nos Estados Unidos. Ontem, dois fatos novos assustaram os investidores. O primeiro foi a divulgação, pela rede de TV americana CNBC, de que o Citigroup pode demitir entre 17 mil e 45 mil empregados (mais informações ao lado).

O segundo foi um anúncio do britânico HSBC de que vai reestruturar dois fundos arriscados para evitar que ambos contabilizem grandes perdas. O banco, o maior da Europa, disse que proverá uma combinação de linhas de crédito e financiamento de longo prazo no valor total de US$ 35 bilhões.

¿Existe uma persistente falta de confiança sobre os problemas financeiros¿, disse Robert Pavlik, executivo-chefe da Oaktree Asset Management. ¿Mais e mais pessoas estão pedindo para o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se mover, mas sentem que provavelmente não haverá um corte do juro entre reuniões.¿ O próximo encontro do Fed ocorre no dia 11 de dezembro.

Para Sandra Utsumi, economista-chefe do BES Investimentos, ¿o que houve hoje (ontem) mostra que, ao contrário do que muitos afirmavam, o Brasil não está imune a um contágio global¿. ¿Não há ativo que se salve em momentos como este.¿

Segundo Luiz Roberto Monteiro, assessor de investimentos da Corretora Souza Barros, investidores estrangeiros têm vendido ações e ativos de renda fixa no Brasil. ¿O cenário externo é o que tem ditado o rumo por aqui¿, disse. ¿A queda da bolsa só não é maior porque a situação do Brasil melhorou. Se fosse antes, o Ibovespa já estaria em 52 mil pontos.¿

Na avaliação de Sandra, a tendência para os mercados continuará sendo definida pela liquidez. Desde que a crise hipotecária nos EUA estourou, as instituições financeiras passaram a ser mais cautelosas na concessão de empréstimos para seus pares. O receio é que as perdas com ativos indexados a hipotecas atinjam elevadas proporções e acabem quebrando alguma empresa do setor.

A conseqüência desse comportamento é a redução da liquidez, que eleva os juros no mercado interbancário. É por isso que, nos últimos meses, os bancos centrais dos países desenvolvidos fizeram diversas intervenções nesse mercado para evitar o que no mercado se chama credit crunch. Ou seja, um momento no qual o dinheiro praticamente não circula.

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