Título: PT decide hoje quem comandará a maior máquina eleitoral do País
Autor: Oliveira, Clarisse; Arruda, Roldão
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/12/2007, Nacional, p. A10
Ricardo Berzoini, apoiado por Lula, e outros seis candidatos disputam votos de quase 1 milhão de filiados
Os filiados do PT vão hoje às urnas para eleger de forma direta a nova direção do partido. Concorrem sete chapas com candidatos à cadeira de presidente - a mesma que já pertenceu a Luiz Inácio Lula da Silva, José Dirceu e José Genoino. Nos debates que antecederam o pleito de hoje falou-se aqui e ali da questão ética e das crises ideológicas e políticas que sacodem o partido desde o vendaval do mensalão, em 2005. Mas esse não foi o centro real da discussão. Ela girou sobretudo em torno das articulações para as próximas eleições e do controle da máquina partidária.
Os dirigentes eleitos neste domingo só deixarão o comando partidário em 2009. Isso significa que terão poder para influir nas eleições municipais de 2008 e também nas negociações para a sucessão do presidente Lula, em 2010.
Não se trata de um poder desprezível. Mesmo fragmentado em tendências e às voltas com crises internas, o PT dispõe hoje da mais bem articulada máquina eleitoral do País, com milhares de pessoas em cargos estratégicos - que podem servir ao partido e ao grupo hegemônico em seu interior. Elas estão instaladas na Presidência da República e nos 15 ministérios e secretarias especiais controladas pelo partido, além de terem cargos em estatais, autarquias e assessorias.
O poder de fogo da sigla ainda conta com 83 deputados federais, 12 senadores, 5 governos estaduais, 126 cadeiras em Assembléias Legislativas, 3.684 postos de vereador e 382 prefeitos. O número oficial de filiados, que cresceu aos saltos desde a vitória de Lula em 2002, já se aproxima da casa do 1,2 milhão. Desse montante, 917 mil estão aptos a participar da eleição de hoje, mas a maioria não comparece às urnas. Em estimativas otimistas, o número de votantes deve chegar a 300 mil.
O controle imediato dessa máquina tende a centralizar cada vez mais as atenções e as disputas internas. ¿No passado, os debates eleitorais do PT giravam em torno de programas e dos rumos ideológicos. Na eleição de 2005, eles foram dominados pela questão ética. Mas agora o que mais pesa é a preocupação com o controle da máquina partidária¿, observa o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Outro analista do processo eleitoral petista, o sociólogo Rudá Ricci, também aponta o controle da máquina partidária como uma das preocupações dominantes. E lembra: ¿Quem vencer agora coordena o processo de sucessão de Lula.¿
No grupo dos três principais postulantes à presidência do partido, dois são pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo: os deputados federais José Eduardo Martins Cardozo e Jilmar Tatto. Além de seus projetos pessoais, cada um deles representa grupos com interesses bem mais elevados.
Entre os cabos eleitorais de Martins Cardozo estão o governador baiano Jaques Wagner e a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, que figuram com freqüência na lista dos prováveis sucessores de Lula. Do outro lado, Tatto faz parte do esquema político da ex-prefeita Marta Suplicy, atual ministra do Turismo, também cotada como presidenciável.
APOIO
O apoio às chapas envolve até disputas por cargo de vereador nas eleições do ano que vem. Mas o que predomina no debate é a sucessão de Lula. O Palácio do Planalto torce claramente por Ricardo Berzoini, atual presidente e candidato com as melhores chances de vitória entre os sete candidatos.
A vitória de Berzoini manteria e legitimaria uma vez mais a hegemonia do antigo Campo Majoritário, do qual Lula faz parte, e daria novo fôlego à atual política de alinhamento, muitas vezes automático, do partido com o governo. Em termos mais práticos, no caso do presidente da República optar pelo apoio a um candidato não petista à sua sucessão, em 2010, Berzoini certamente causaria menos problemas que os outros pretendentes ao cargo.
Talvez seja por isso que, no final da semana, às vésperas do pleito, o presidente fez questão de anunciar a amigos e assessores que vai votar neste domingo e já definiu seu candidato: será mesmo Berzoini. Em setembro, quando a candidatura dele era incerta, Lula tinha tentado emplacar, sem sucesso, o nome de seu assessor especial para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia.
Berzoini ouviu a manifestação de apoio do próprio Lula. Ainda assim, o presidente enviou seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, para tranqüilizar também os demais representantes da chapa Construindo um Novo Brasil, encabeçada pelo deputado.
Nos últimos dias do chamado Processo de Eleições Diretas do PT, a questão da sucessão do presidente Lula ganhou corpo. De acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo entre os participantes do 3º Congresso do PT, em setembro, e distribuída a integrantes da direção executiva do partido, 91% deles defendem o lançamento de uma candidatura própria em 2010.
São contra, portanto, a idéia de apoiar Ciro Gomes (PSB) ou qualquer candidato de outro partido da base aliada que tenha caído nas graças de Lula.
Diante disso, todos os candidatos passaram a insistir na tese da candidatura petista. Mesmo Berzoini, que há apenas alguns meses replicava o discurso de Lula e afirmava que o PT não podia ser ¿arrogante¿ ao ponto de pretender automaticamente a cabeça-de-chapa, agora diz duvidar que a militância aceite qualquer candidatura que não seja do PT.
Mas tanto dentro quanto fora do partido sabe-se que a decisão será mesmo de Lula. ¿Hoje o presidente tem mais força que o partido - e o partido vai seguir o que ele determinar¿, diz Teixeira, da FGV.
A vitória de Martins Cardozo criaria pequenos tremores, com a redução do poder do antigo Campo Majoritário e o rearranjo de forças petistas. A candidatura dele é atribuída sobretudo a articulações do ministro Tarso Genro, da Justiça, que logo após o mensalão propôs, sem sucesso, a refundação do PT, com mudanças em métodos de direção e linhas políticas.
As outras quatro candidaturas alinham-se à esquerda do partido e têm poucas chances de vitória. É no meio desses grupos menores que se ouvem com mais freqüência críticas à invasão de temas eleitorais e de uso da máquina partidária no processo de escolha da nova direção. ¿O PT, o mais importante partido político do país, não é só uma máquina eleitoral. Mas é cada vez mais uma máquina¿, diz Markus Sokol, representante de grupos de tendência trotskista no interior do partido.
VOTO
Se depender de levantamentos realizados pelas correntes petistas nas últimas semanas, deve prevalecer mesmo a vontade de Lula na eleição de hoje. Berzoini, segundo estimativas de seus aliados, tem condições de obter cerca de 150 mil votos, em um cenário otimista.
Se o quórum nas urnas se aproximar dos 300 mil militantes esperados, isso equivaleria a 50% dos votos e abriria uma chance, mesmo que restrita, de vitória no primeiro turno. Por esse cenário, Tatto e Martins Cardozo teriam chances de levar a disputa ao segundo turno, já que conseguiriam 38 mil e 36 mil votos, respectivamente.
A possibilidade de vitória de Berzoini no primeiro turno foi apontada até mesmo nas pesquisas internas realizadas por aliados de Tatto. Nesse caso, a expectativa é de que o atual presidente do PT obtenha algo em torno de 45% a 50% dos votos.
Seja qual for o presidente escolhido neste fim de semana, ele dificilmente contará com a maioria absoluta no Diretório Nacional do PT que tanto facilitou as gestões de José Dirceu e Genoino. Mesmo dentro da chapa de Berzoini, o que se espera é que a participação da corrente alcance a faixa de 45% dos 81 assentos, um leve aumento em relação aos atuais 42%.
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