Título: Mão-de-obra qualificada e crescimento ::
Autor: Goldfajn, Ilan
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/12/2007, Espaço Aberto, p. A2

O esforço ficou no primeiro mandato. Agora é o momento de aproveitar. O que era uma compulsão a ser evitada - gastos crescentes e ineficientes, inchaço da máquina pública - é hoje motivo de orgulho. O Estado agora é ¿nanico¿, tem de gastar e contratar mesmo. A carga tributária crescente e a alta dívida pública são preocupações do passado, do primeiro mandato. Rasgamos a fantasia. O segundo mandato deste governo é como o carnaval, só se pensará nas suas conseqüências quando terminar. Mas o Brasil não acaba no fim do segundo mandato. O futuro depende das ações atuais. Neste artigo quero enfatizar uma dessas ações: a qualificação da mão-de-obra como alavanca do crescimento do produto interno bruto (PIB).

Em economia, há defasagens temporais, da ação à conseqüência. Não tenho dúvida de que a boa situação econômica de hoje - a estabilidade macroeconômica, a melhora nas contas externas, a queda do risco Brasil (e a proximidade da obtenção do grau de investimento pelas agências de classificação), a queda da inflação e, em geral, a melhora nas condições de vida - é conseqüência dos esforços acumulados do passado, recente e mais distante.

O futuro, por sua vez, dependerá dos esforços atuais. Quais seriam esses esforços? Podemos agrupá-los entre os que aumentam a produtividade e os que incentivam o investimento. Por exemplo, a contrição e a eficiência nos gastos públicos permitiriam mais investimentos. Estes gerariam o aumento da capacidade produtiva necessária para um crescimento sustentado no futuro.

Há hoje dois investimentos que são centrais para a economia: na área de energia (para evitar o apagão) e na qualificação da mão-de-obra. Vou-me concentrar neste último, que tem recebido menos atenção dos analistas, mas é cada vez mais relevante para as empresas e a produção. Qual é o valor adicional de se ter uma sociedade mais educada? Quanto o Brasil pode crescer mais, de forma sustentada?

Os economistas costumam medir a capacidade de crescimento do País - estimativa denominada como crescimento do ¿produto potencial¿ - em função do investimento, do crescimento da força de trabalho e da produtividade (resultante, entre outros, dos avanços na tecnologia). Estima-se que, nos últimos anos, a taxa de crescimento do produto potencial tenha aumentado de um valor ao redor de 2,5%, no fim de 2003, para um valor em torno de 4%, mais recentemente. Essas estimativas são imprecisas, principalmente os números mais atuais, pois envolvem cálculos com margem de erro e diversas hipóteses. De qualquer forma, parece claro que houve aceleração do crescimento potencial nos últimos anos.

Essa aceleração do crescimento ocorreu, principalmente, em razão de uma maior contribuição do fator trabalho, ou seja, de quanta mão-de-obra a economia foi capaz de absorver para aumentar a produção. Essa contribuição foi maior que a do investimento e da chamada produtividade total dos fatores (produtividade não ligada diretamente ao fator trabalho ou capital).

Estudo feito pelo economista Rodrigo Adão, da Ciano, mostra que a incorporação da mão-de-obra contribuiu com 0,93% entre 1999 e 2003 e 1,66% entre 2004 e 2005 (2% no final de 2005).

O interessante do estudo é que há um impacto relevante de uma qualificação maior da mão-de-obra, medido como a proporção dos trabalhadores que terminaram o ensino superior ou, numa outra especificação, o ensino médio. Quando a qualificação da mão-de-obra é levada em consideração, a contribuição média da mão-de-obra para o crescimento do produto potencial entre 1999 e 2003 aumenta para 1,4% (0,83% do trabalho qualificado e 0,57% do trabalho não-qualificado) e, entre 2004 e 2005, para 2,11% (1,04% do trabalho qualificado e 1,07% do não-qualificado). A contribuição, no final de 2005, foi de 2,4% (devida à aceleração da contribuição do trabalho qualificado para 1,1%).

O modelo que inclui o fator trabalho qualificado mostra que, no período, a produtividade total dos fatores ficou praticamente estável, aumentando ligeiramente em 2005 (0,19%, em 2003, para 0,31%, em 2005).

Esses resultados são significativos: se 1% dos trabalhadores não-qualificados se tornassem qualificados (isto é, se concluíssem o ensino superior), o produto potencial aumentaria 1,9%. O mesmo exercício foi realizado definindo como qualificados os trabalhadores com ensino médio completo. Neste caso, se 1% dos trabalhadores não-qualificados se tornassem qualificados, o produto potencial aumentaria 0,5%.

Dado que, em 2005, os trabalhadores com ensino superior completo representavam apenas 7% da população economicamente ativa (33% no caso de ensino médio), a qualificação da força de trabalho poderia aumentar a taxa de crescimento do produto potencial brasileiro durante um longo período.

Em suma, se o Brasil quiser crescer a taxas elevadas, é preciso concentrar-se nas questões fundamentais. Além de resolver o imbróglio energético (para evitar apagão futuro), será necessário investir mais na qualificação da mão-de-obra por meio de um aumento do seu grau de instrução (ênfase na educação e na profissionalização). E, quanto antes esse investimento ocorrer, melhor, tendo em vista a defasagem entre o momento da qualificação e a sua utilização para aumentar a produção. O atual questionamento de princípios básicos que regem a boa macroeconomia - gastos crescentes e ineficientes só reduzem a capacidade de crescimento, já que comprimem o investimento e a produtividade - só nos desvia do foco principal. Afinal, é bom lembrar, o tempo não pára.

* Ilan Goldfajn é sócio-diretor da Ciano Investimentos, diretor do Iepe da Casa das Garças e professor da PUC-Rio. E-mail: igoldfajn@cianoinvest.com.br