Título: Argentina perto de Brasil e Venezuela
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/11/2007, Economia, p. B7

Para Cristina, aproximação com Lula não implica afastamento de Chávez

A presidente eleita Cristina Fernández de Kirchner declarou, em entrevista publicada ontem no jornal Página 12, que a aproximação da Argentina com o Brasil 'não deveria implicar um afastamento' do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Cristina, que tomará posse no dia 10 de dezembro, também explicou que sua proximidade com Chávez tampouco deveria implicar afastamento do Brasil. 'O presidente Lula tem falado sobre a necessidade de ampliar o Mercosul com a Venezuela, cuja presença terminará de fechar a equação energética', disse.

Em Buenos Aires, as declarações de Cristina foram encaradas como uma atitude diplomática, de forma a não melindrar Chávez. No entanto, ela deu sinais, desde sua campanha eleitoral, que o Brasil é prioritário em sua política externa. Nesse contexto, afirmam os analistas, Chávez perderá o peso que teve durante o governo do marido de Cristina, Néstor Kirchner.

Cristina já visitou Lula após as eleições, mas, apesar do convite de Chávez para ir a Caracas, a presidente eleita ainda não deu respostas sobre essa viagem.

No entanto, o peso do presidente venezuelano ainda é importante. Na semana passada, Chávez determinou que seu governo comprasse US$ 500 milhões em títulos Boden 2015 da dívida argentina. Chávez tornou-se o principal salva-vidas financeiro do governo Kirchner.

Mas, nas últimas semanas, Cristina começou a emitir sinais de que pretende negociar com o Clube de Paris a dívida de mais de US$ 6 bilhões que possui com esse organismo financeiro. Com esse acordo, a Argentina recuperaria seu acesso aos mercados internacionais de crédito. Mas, no meio do caminho do acordo, está o Fundo Monetário Internacional (FMI), que precisa aprovar a negociação. Se o acordo fosse realizado, a Argentina poderia prescindir das compras venezuelanas de seus bônus.

Segundo Cristina, o acordo com o Clube de Paris possui duas condições: 'Não estarmos sujeitos às condições do FMI e seguir com essa política de crescimento, que é a que nos permitiu pagar nossas dívidas'. A presidente eleita destacou que a presença do novo diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, em sua posse presidencial no dia 10 de dezembro, 'é um gesto de cortesia, que valorizamos'.

Segundo Cristina Kirchner, as relações com os Estados Unidos não terão modificações em sua gestão. Ela sustentou ao Página 12 que o governo Kirchner possui uma 'relação madura' com os EUA. Segundo Cristina, o presidente George W. Bush lhe telefonou para parabenizá-la por sua vitória.

'HISTÉRICA'

A presidente eleita admitiu que seu estilo é diferente do do marido. 'Gosto muito das relações internacionais. A época na qual Kirchner teve de tomar posse não era exatamente a mais apropriada para que elas fossem prioridade', disse. 'O que teria acontecido se o presidente tivesse se dedicado a passear alegremente pelo mundo enquanto o país pegava fogo?'

Cristina também reclamou do machismo na sociedade argentina: 'Não acredito que ser mulher seja um ponto favorável. A presidente do Chile, Michelle Bachelet, teve essa experiência e disse que se julga diferente o homem e a mulher. Se o homem grita, é enérgico. Se a mulher grita, é uma histérica. Fico com raiva disso.'

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