Título: Fujimori passa mal e julgamento é suspenso
Autor: Miranda , Renata
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/12/2007, Internacional, p. A13
Crise de hipertensão faz com que a primeira audiência seja interrompida
Durou pouco o primeiro dia do julgamento do ex-presidente peruano Alberto Fujimori (1990-2000). Ele exaltou-se ontem na hora de apresentar sua defesa, sofreu uma crise de hipertensão e a sessão foi interrompida depois que o presidente do tribunal, Cesar San Martin, ouviu o diagnóstico de um especialista.
Sete anos depois de ter abandonado o poder e fugido para o Japão, Fujimori, de 69 anos, está sendo julgado pelas acusações de violação de direitos humanos. ¿Rejeito todas as acusações, sou inocente¿, afirmou. Exaltado, o ex-presidente pediu ¿30 segundos¿ para terminar de expor sua defesa.
¿Meu governo resgatou os direitos humanos de 25 milhões de peruanos¿, disse,com o tom de voz elevado e agitando os braços. ¿Se aconteceram feitos detestáveis, não foram por ordens minhas. E eu os condeno.¿ Após o discurso, veio a crise de hipertensão e a sessão foi suspensa.
Ontem, partidários do ex-presidente foram ao local do julgamento para pedir a inocência do ex-presidente. ¿O julgamento de Fujimori é de extrema importância para a consolidação da democracia no Peru¿, afirmou ao Estado, por telefone, Cynthia Sanborn, chefe do Departamento de Ciências Políticas e Sociais da Universidade do Pacífico, em Lima. ¿Um julgamento justo é essencial para recuperar a credibilidade do Judiciário peruano.¿
O sociólogo e cientista político Sinesio López, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Peru, acredita que o julgamento terá conseqüências em toda a América Latina. ¿Um julgamento público de um ex-governante serve como lição para todo o continente¿, disse. Estima-se que a conclusão do julgamento de Fujimori leve de nove meses a dois anos.
De acordo com López, a vasta cobertura do caso feita pela imprensa poderia pôr em risco a credibilidade do processo judicial. ¿Ao fazer do julgamento um espetáculo de mídia, existe o risco de que ele perca seu caráter natural¿, disse.
Segundo ele, a promotoria tem interesse em um processo rápido para evitar que o ex-presidente aproveite os benefícios concedidos pelo Código Penal a maiores de 70 anos - idade que Fujimori completará em 28 de julho de 2008 - como a redução de pena e a prisão domiciliar.
Fujimori será julgado pelos casos de desaparecimentos atribuídos ao Serviço de Inteligência do Exército (SIE) e pelos massacres de Barrios Altos, em 1991, e de La Cantuta, em 1992, considerados as mais graves violações dos direitos humanos cometidas no Peru nos últimos 30 anos.
As duas chacinas, que deixaram ao todo 25 mortos, foram executadas por um esquadrão da morte formado por membros do Exército denominado Grupo Colina. A organização respondia às ordens de Vladimiro Montesinos, eminência parda do governo e ex-assessor de inteligência de Fujimori.
No massacre de Barrios Altos morreram 15 pessoas que participavam de uma festa. Já na chacina da Universidade La Cantuta as vítimas foram um professor e nove alunos. A Justiça peruana acusou Fujimori de responsabilidade nos episódios. Ele foi indiciado por co-autoria nos delitos de homicídio qualificado, tortura e desaparecimento de pessoas. A promotoria pediu uma pena de 30 anos para o ex-presidente e o pagamento de US$ 33 milhões como reparação às vítimas.
A ascensão meteórica do ex-presidente ocorreu no início dos anos 90 em razão do duro combate contra o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. A repressão aos rebeldes se intensificou após o ¿autogolpe¿, dado em 1992, quando Fujimori dissolveu o Legislativo e o Judiciário com o apoio do Exército. A derrota da guerrilha e a relativa prosperidade econômica garantiram sua popularidade.
Além do julgamento que começou ontem, Fujimori responde ainda a um processo pela invasão da casa de Trinidad Becerra, mulher de Montesinos, em 2000. Como o caso tramita há mais tempo, a expectativa é de que seja essa a primeira sentença recebida pelo ex-presidente.
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