Título: Lula vai ao DEM e depois cobra fidelidade da base
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/12/2007, Nacional, p. A5
Líder avisa a indecisos que governo também sabe fazer maldades e que destino de dissidentes é a oposição
Brasília
Um telefonema dado na segunda-feira para Buenos Aires e um providencial café da manhã com um governador da oposição (DEM) ajudaram ontem o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva a abrir uma negociação que pode vir a facilitar a prorrogação da CPMF até 2011 e salvar uma receita anual de cerca de R$ 40 bilhões. Além da aproximação com a bancada tucana para salvar a CPMF, o Planalto decidiu ontem falar grosso com sua base de sustentação no Senado, cobrando fidelidade e apoio à contribuição.
A jornada de Lula em busca dos votos pela CPMF começou às 8h30 e terminou quase 14 horas depois, às 22h15, quando deixou o Planalto. Já o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, só encerrou o expediente às 23h30, após reunião com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), e o ex-ministro e deputado Antonio Palocci (PT-SP). Enquanto se desenrolava a reunião dos articuladores do governo, a bancada do PSDB no Senado discutia no gabinete do senador Sérgio Guerra (PSDB-PE).
PRETEXTO
Lula tomou ontem café da manhã com o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM). Na segunda-feira, quando o presidente estava na Argentina para a posse de Cristina Kirchner, Arruda telefonou pedindo audiência para tratar do apoio da União a um empréstimo de US$ 250 milhões, do Banco Mundial (Bird), para o DF. Lula prometeu recebê-lo, mas ontem, usando como pretexto seu telefonema e a emperrada negociação da CPMF, inverteu os papéis: logo cedo, ligou para Arruda perguntando se era possível ¿tomar um cafezinho¿ na residência oficial das Águas Claras. ¿Claro, presidente. Pode vir aqui¿, respondeu o governador.
Assim, Lula deixou de lado a agenda oficial e foi até a residência oficial de Arruda. Lá, pediu-lhe que intercedesse no DEM e tentasse liberar os votos de Jonas Pinheiro (MT), Jayme Campos (MT) e Adelmir Santana (DF). Pediu ainda ajuda para que o partido não cobre de volta na Justiça Eleitoral os mandatos dos ex-filiados Romeu Tuma (PTB-SP) e César Borges (PR-BA), caso votem a favor da CPMF. Mas Arruda disse que nada poderia fazer, pois o DEM fechou questão contra o imposto.
Na aparência, Lula foi a Arruda para pedir apoio do DEM. Mas o presidente não só não saiu de mãos vazias do encontro, como levou aquilo que foi a real motivação da visita: a ajuda do governador para fazer a ponte com o senador Marconi Perillo (PSDB-GO), que seria sensibilizado ao longo do dia com a proposta de renegociar a dívida do Estado de Goiás com a União.
Com os tucanos pressionados pelos interesses dos governadores em melhorar o perfil de suas dívidas - o que, além de Perillo, interessa a Yeda Crusius (RS) -, o Planalto avisou aos aliados que é hora de provar que pertencem à base de apoio, votando a favor da CPMF. E informou que dissidentes passarão a ser tratados como oposição.
Um líder governista avisou a senadores indecisos da base que, assim como o governo sabe fazer bondades, também sabe fazer maldades. Esse líder lembrou que o governo não termina nessa votação, que há vários anos ainda de governo e é hora de provar quem é da base - ou seja: quem não votar a favor da CPMF pode procurar a oposição.
Na Fazenda, Mantega recebeu o governador de Rondônia, Ivo Cassol, interessado em atrair o voto do senador Expedito Júnior (PR-RO), seu aliado. Na conversa, o ministro se dispôs a renegociar a situação do Banco do Estado de Rondônia e até incorporar ao quadro de servidores federais parte dos funcionários estaduais. Mesmo assim, até o fim do dia, Expedito resistia: ¿Não vou mudar meu voto.¿
Os governistas voltaram também a falar em esperança de virar o voto de Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), um dos dissidentes da base. Mozarildo reafirmou que não recua. JOÃO DOMINGOS, MARCELO DE MORAES, CHRISTIANE SAMARCO e RUI NOGUEIRA
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