Título: PIB forte deixa setor elétrico em alerta
Autor: Pereira, Renée
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/12/2007, Economia, p. B9
Fornecimento de gás e regime de chuvas são fundamentais para País evitar um novo apagão nos próximos 4 anos
O robusto desempenho da economia no terceiro trimestre reacendeu o sinal de alerta no setor elétrico brasileiro. Embora o governo afaste qualquer risco de um novo racionamento, especialistas avaliam que o País passará apertado nos próximos quatro anos. ¿O crescimento maior vai elevar a tensão no setor¿, avalia o professor da Universidade de São Paulo (USP) José Goldemberg.
Além do comportamento da atividade econômica, dois outros importantes fatores vão determinar o nível de risco do sistema elétrico daqui em diante: o nível de chuvas e o cumprimento do Termo de Compromisso da Petrobrás para o fornecimento de gás para as termoelétricas.
Um deles - o crescimento da economia - já está fora até mesmo das previsões do governo. No Plano Decenal de Energia 2007-2016, os cálculos consideram avanço de 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2011, o que elevaria o consumo de energia em 5,8%. Seguindo esse raciocínio, se o País crescer 5,3%, conforme anunciado semana passada, o uso da energia subiria 6,4%.
A esse problema, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Adilson de Oliveira acrescenta as previsões de chuvas abaixo da média histórica. Ele destaca que hoje a situação já é grave, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). ¿No Sudeste e Centro-Oeste, o nível de chuvas está em 45% da média; no Nordeste, 30%; e no Norte, 42%. Só no Sul a situação é confortável, com 83%.¿
Exemplo disso é que, na semana passada, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) anunciou uma operação para poupar os reservatórios do Nordeste. A solução foi aumentar a transferência de energia do sistema Sudeste para o Nordeste em 1.000 MW médios. ¿Ao elevar a transferência de energia, o governo torna mais vulnerável o sistema Sudeste¿, alerta Oliveira.
Segundo o Instituto Acende Brasil, os problemas no setor elétrico brasileiro poderão aparecer já em 2008. O presidente da entidade, Claudio Sales, destaca que os cálculos mostram um déficit estrutural de oferta de 2.600 MW médios no ano que vem. ¿Isso não significa que vai faltar energia, mas que o País precisará de chuva farta. Nesse caso, se a economia cresce mais que o previsto, o risco também aumenta.¿
Especialistas de dentro do governo também demonstram preocupação, mas acreditam que a situação pode ser gerenciável em 2008. Em 2009, o setor estaria nas mãos da Petrobrás, que precisa cumprir o compromisso de entregar gás suficiente para abastecer as térmicas.
O sistema dependerá dessas usinas para garantir o abastecimento. ¿A preocupação é que tudo no setor é cumulativo. Se tem seca, o consumo residencial e comercial é muito maior. Além disso, períodos secos reduzem os reservatórios, independentemente da economia¿, afirma um especialista ligado ao governo, que prefere não se identificar.
Nesse cenário de escassez, o avanço do consumo de clientes residenciais tem assustado. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o uso da energia por esses consumidores está acima de 6% entre janeiro e outubro. Uma das explicações é o avanço do crédito, que tem permitido a compra de uma série de eletroeletrônicos. ¿Precisamos fortalecer o discurso de conservação de energia e incentivar fontes alternativas¿, diz o diretor da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Paulo Mayon.
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