Título: Maturidade política
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/12/2007, Notas e Informações, p. A3
A 34ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, concluída terça-feira em Montevidéu, foi uma oportunidade para que se evidenciasse a posição singular do Brasil na América Latina em matéria de maturidade política - muito bem aproveitada pelo presidente Lula da Silva. O contraste com alguns países da vizinhança - as exceções são Uruguai e Chile - fica ainda mais nítido quando se tem em conta que o País é governado por um egresso do movimento operário, cuja excepcional trajetória se orientou marcadamente por idéias de esquerda. Não tivesse o Brasil amadurecido politicamente como amadureceu no período de uma geração, primeiro, o líder sindical de São Bernardo do Campo não teria chegado à Presidência e, segundo, o presidente brasileiro que estaria em seu lugar em Montevidéu quase certamente engrossaria o coro de antiamericanismo primário.
Sendo a história o que é, felizmente, o presidente brasileiro pode se destacar pela sensatez e distinguir o Brasil, dando uma lição aos parceiros da união meridional. O mais espalhafatoso deles, o coronel Hugo Chávez, para variar, acusou Washington de liderar uma ¿campanha¿ contra a Venezuela e fazer pressões contra o Mercosul. Discípulo comportado do autocrata venezuelano, o boliviano Evo Morales culpou a ¿intromissão estrangeira¿ pela cizânia que ele próprio provocou entre os seus com a sua malsinada reforma constitucional de talhe chavista. E a ¿estreante¿ Cristina Kirchner, que assumiu a presidência pro tempore do bloco, verberou as ¿interferências¿ dos que ¿parecem que somente querem países empregados e subordinados¿. Há alguns dias, como se sabe, o FBI anunciou ter provas de que os US$ 800 mil apreendidos em agosto na Argentina com um recém-desembarcado empresário venezuelano era dinheiro turvo de Chávez para a campanha de Cristina.
A diferença entre esse palavrório e a intervenção de Lula foi da água para o vinho. Não pela primeira vez, mas com ênfase incomum, ele apontou para o nervo exposto das atribulações do Mercosul, que os seus colegas se recusam convenientemente a encarar - afinal, para isso é que existe, desde tempos imemoriais, a teoria do inimigo externo.
Essa é uma canoa em que Lula se recusa a embarcar. ¿As coisas que não estão andando não é culpa do vizinho¿, afirmou, tropeçando na sintaxe, mas acertando em cheio no conteúdo. ¿Não é culpa da Alemanha, dos Estados Unidos, do Japão. A culpa é nossa de não tomarmos as decisões que precisamos tomar.¿ ¿É eminentemente nossa¿, enfatizou, entrando, em seguida, numa crítica à ineficiência da burocracia do Mercosul, que faz com que muitas decisões tomadas em reuniões de cúpula nunca saiam do papel.
Quem assistiu à fala do presidente há de ter percebido que ele não se limitou a repisar uma conhecida autocrítica. O tom do pronunciamento, na circunstância em que se deu, deixa transparecer um sentido de oportunidade.
Faz menos de um mês, com efeito, que as ambições hegemônicas de Chávez na América Latina adernaram ao colidirem com o não da maioria dos venezuelanos à reforma constitucional que ¿legitimaria¿ sua ditadura vitalícia. Lula, de seu lado, embora continue a afagar o ego do caudilho, por palavras e gestos afetuosos, com certeza percebeu que a derrocada da armação golpista tirou o gás do outro na arena internacional, pavimentando o caminho para ele assumir o papel construtivo que tem todas as condições de exercer na região, por seus atributos pessoais, por sua imagem política - e pelo País que representa. As suas exortações para que o destino do Mercosul dependa antes da decisão política dos dirigentes dos países membros do que das ¿nossas burocracias¿ se inscrevem nesse mesmo movimento por uma nova interação das lideranças latino-americanas.
O desafio diante de Lula não é propriamente novo - afugentar o espectro do ¿imperialismo brasileiro¿ que ainda assombra nossos vizinhos. Nesse sentido, tudo que ele não precisava foi a gafe colossal de sua ministra Dilma Rousseff, cada vez mais candidata ao Planalto. Também na terça-feira, para justificar a atitude do governo em face da Bolívia de Evo Morales, ela deixou escapar que, ¿se temos a liderança neste continente, temos de tomar conta de certas pessoas¿.
É caso para rompimento de relações!
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