Título: Fala de Lula expõe racha na equipe
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/12/2007, Nacional, p. A5
Mantega queria crítica à oposição pelo fim da CPMF; Múcio alertou para risco de comprometer novas votações
A preparação do pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, exibido na noite de quinta-feira em rede nacional de rádio e TV, expôs as divergências no governo. Um dia antes da mensagem de fim de ano ir ao ar, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sugeriu a Lula, em reunião no Palácio do Planalto, que responsabilizasse a oposição pelo fim da CPMF.
O tom do pronunciamento em relação às poucas linhas sobre o imposto do cheque dividiu a coordenação política. Na seara política, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, ponderou que não seria bom comprar uma briga com a oposição nesse momento. Alegou que o governo precisará do PSDB e do DEM para aprovar projetos importantes no primeiro semestre de 2008. Na lista estão a provável contribuição para financiar a saúde e a reforma tributária.
¿Essa reforma não será uma matéria fácil de ser votada, principalmente num ano eleitoral¿, comentou Múcio, numa referência às disputas municipais. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, concordou com o colega. Árbitro da discussão, Lula adotou o meio-termo: não responsabilizou com todas as letras os adversários pelo fim da CPMF, mas fez crítica velada ao dizer que o processo de investimento na saúde foi ¿truncado¿ com o fim do tributo.
A retórica diplomática, no entanto, predominou. ¿Como democrata, respeito a decisão tomada pelo Congresso. E estou convencido de que o governo, o Congresso e a sociedade, juntos, encontrarão uma solução para o problema¿, afirmou o presidente. Entre os itens anotados para a produção da mensagem de Lula estava apenas uma menção genérica ao ¿Congresso¿ ao lado da sigla CPMF. Foi a partir daí que se deu a discussão sobre como abordar o espinhoso tema.
Desde que o governo sofreu sua maior derrota no Senado, com o fim do imposto do cheque, há divergências entre a Fazenda e o Planejamento sobre as medidas que devem ser adotadas para cobrir o rombo previsto daqui para a frente. Não é só: até hoje auxiliares de Lula e parlamentares do próprio PT responsabilizam Mantega e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), pelo revés. Lembram que, quando a derrota do governo já era anunciada, Lula pediu ajuda ao deputado e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP), que entrou nas negociações na última hora, mas não conseguiu reverter o quadro.
A equipe de Mantega, por sua vez, avalia que Bernardo causou mal-estar desnecessário ao afirmar publicamente que as emendas parlamentares de bancada devem ser o principal alvo do ajuste a ser feito para compensar a extinção da CPMF. Dos R$ 12 bilhões previstos para emendas coletivas ao Orçamento, em 2008, a metade deve ser cortada.
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