Título: Chávez promove expurgo após derrota
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/01/2008, Internacional, p. A12
Reforma pune responsabilizados por `não¿ em referendo
A ampla reforma de gabinete anunciada quinta-feira por Hugo Chávez funcionou como uma punição para os responsáveis pela campanha do ¿sim¿ no referendo de dezembro sobre a reforma constitucional proposta pelo presidente venezuelano, segundo analistas. Os principais alvos foram o ministro de Comunicações, William Lara, substituído pelo presidente da Telesur, Andrés Izarra, e o vice-presidente Jorge Rodríguez, que sairá definitivamente do governo para participar da coordenação do partido chavista PSUV. Rodríguez esteve à frente do chamado Comando Zamora, criado para organizar a campanha do referendo, no qual Chávez foi derrotado após nove vitórias consecutivas em processos eleitorais.
¿Especula-se que a designação de Rodríguez para vice, há um ano, foi um prêmio porque ele esteve à frente do Conselho Nacional Eleitoral em 2004, quando a oposição perdeu uma consulta popular com a qual pretendia revogar o mandato do presidente¿, diz o analista político Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar. ¿A destituição é a punição porque desta vez Chávez não ganhou.¿
Segundo Noria, a reforma também amplia o papel dos militares no governo, principalmente porque para o lugar de Rodríguez o presidente indicou Ramón Corrizález, um militar da reserva que já ocupou a pasta de Infra-Estrutura e no ano passado esteve à frente da Habitação. ¿O critério usado por Chávez para escolher seu novo vice foi a lealdade, não a eficiência, porque no último ano as políticas habitacionais deixaram muito a desejar - apenas 35% das casas que Carrizález prometeu construir saíram do papel¿, diz o analista.
No total foram trocados o vice-presidente e 12 ministros. ¿Cerca de 70% dos novos titulares já foram ministros ou estavam no governo ocupando outras pastas e cargos de alto escalão¿, explica o analista político Fernando Gerbasi, da Universidade Metropolitana de Caracas. Um exemplo é Jesse Chacón, transferido da pasta de Telecomunicações para a Secretaria da Presidência. Para Gerbasi, Chávez fez a reforma para dar à população a impressão de que tem consciência dos erros de seu governo e está fazendo mudanças para melhorar. ¿A verdade, porém, é que o presidente só reposicionou as mesmas peças em seu tabuleiro, sem chamar gente nova porque não confia em ninguém.¿
Entre os pontos mais polêmicos do projeto derrotado no referendo estavam o fim da autonomia do Banco Central, as reeleições ilimitadas para presidente e a criação de outras formas de propriedade além da privada, como a coletiva.
Abalado com a vitória da oposição, Chávez tem adotado um discurso um pouco mais moderado. ¿Não podemos nos deixar arrastar pelas correntes extremistas, não somos extremistas¿, disse ele quinta-feira. ¿Temos de buscar alianças com a classe média, até com a burguesia, sem adotar teses fracassadas no mundo todo, como essa que diz para eliminar a propriedade privada.¿
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