Título: Chávez diz que Farc não são grupo terrorista
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/01/2008, Internacional, p. A18
Líder pede que elas sejam reconhecidas como uma força insurgente legítima
Um dia depois da libertação de duas reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o presidente venezuelano, Hugo Chávez, instou Bogotá, a Europa e os governos latino-americanos a reconhecer a guerrilha como ¿força insurgente¿ legítima. ¿As Farc e o ELN (Exército de Libertação Nacional, outra guerrilha colombiana de esquerda) não são terroristas. São exércitos que ocupam espaços na Colômbia e têm um projeto político e bolivariano que aqui é respeitado¿, disse Chávez, atribuindo às pressões dos EUA o fato de muitos governos se recusarem a reconhecer a legitimidade dos rebeldes. ¿Presidente colombiano, quero retomar o diálogo, mas lhe peço que reconheça esses grupos como forças insurgentes e não terroristas.¿
A declaração soou como afronta a Bogotá, que sempre se negou a dar esse status às Farc, para não aumentar o poder de barganha da guerrilha e legitimá-la aos olhos da comunidade internacional. No início do mês, o presidente colombiano foi acusado por Chávez de tentar sabotar a operação de resgate revelando que as Farc não estavam com o filho da refém Clara Rojas, Emmanuel, apesar de também terem prometido entregá-lo ao líder venezuelano.
Com o sucesso do resgate de Clara e da ex-senadora Consuelo de Perdomo, Chávez recuperou o ânimo após uma semana de discursos tímidos. ¿Presidente Álvaro Uribe, use-me. Peço que reconsidere a possibilidade de que eu vá às regiões de Guaviare e Caguán. Subo num helicóptero e em duas ou três horas estou falando com (Manuel) Marulanda (líder máximo das Farc)¿, disse na noite de quarta-feira. Ontem, ele usou os primeiros minutos de seu discurso à nação, na abertura da sessão da Assembléia Nacional, para agradecer às Farc e prometer continuar a negociar um acordo humanitário com a guerrilha. ¿Tomara que o governo colombiano me capacite para isso.¿
Segundo a senadora colombiana Piedad Córdoba, as reféns libertadas trouxeram uma carta na qual outros seqüestrados pedem que Chávez lhes conceda cidadania venezuelana. O objetivo, segundo Piedad, seria fazer com que as Farc os ¿tratassem melhor¿ e permitir a Chávez continuar a negociar com a guerrilha, mas agora em condição de parte interessada, não só mediadora. ¿Haverá mais libertações¿, prometeu o ministro de Interior e Justiça da Venezuela, Ramón Chacín.
Após Consuelo e Clara chegarem à Venezuela, as Farc reiteraram a exigência da desmilitarização dos municípios de Pradera e Florida para continuar negociando. ¿Esse primeiro passo nos convida a pensar na possibilidade da paz na Colômbia¿, disse o grupo num comunicado atípico, porque até agora falava só em ¿troca humanitária de reféns por rebeldes presos¿ e não num processo de paz. Mas o ministro colombiano de defesa, Juan Manuel Santos, disse que a libertação unilateral das duas reféns prova que ¿não é necessária uma área desmilitarizada ampla para que haja acordo¿.
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