Título: Medo de Lula é abortar crescimento
Autor: Lu Aiko Otta
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/01/2008, Economia, p. B4

Governo avalia que crise é para 2009 e discute quais investimentos antecipar para evitar a falta de energia

O maior temor do presidente Lula - o de abortar um ciclo de crescimento econômico por falta de energia elétrica, a exemplo do que ocorreu com o apagão de 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso - veio à tona na semana passada. O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, afirmou que, embora pouco provável, ¿não é impossível¿ que haja racionamento de energia em 2008.

A declaração abriu uma polêmica. O ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner, deu duas entrevistas em dias diferentes para descartar o risco de apagão em 2008 e 2009. Ao mesmo tempo, anunciou medidas que ampliarão o fornecimento, como o acionamento de seis usinas térmicas a óleo localizadas no Sudeste.

Nesse momento crítico, Lula também teria decidido nomear um político, o senador Edison Lobão (PMDB-MA), para comandar o Ministério de Minas e Energia. A grande questão é como ele montará sua equipe: se manterá os principais técnicos, como defende a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ou se entregará os postos-chave a pessoas de sua escolha.

Na terça-feira, Lula convocou toda a cúpula energética para tentar formar seu próprio juízo sobre o risco de falta de energia. Ele está preocupado, a ponto de na quinta-feira haver dito a seus ministros que não aceitará corte no fornecimento a consumidores.

A discussão deixa claro que o principal problema evidenciado em 2001 ainda não foi resolvido: a oferta de eletricidade é um limitador para o crescimento econômico. ¿O Brasil não pode crescer muito. Queira o governo ou não, o cobertor é curto e vai continuar assim durante anos¿, disse o vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e coordenador do Núcleo de Infra-Estrutura da entidade, José de Freitas Mascarenhas.

A segurança energética como base de sustentação ao crescimento econômico foi uma das prioridades na elaboração do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), onde 54,5% do total de R$ 504 bilhões em investimentos previstos até 2010 são para a área de energia.

O Brasil enfrenta problemas não só pelo fato de depender das chuvas para garantir a geração de energia, mas também porque o sistema alternativo, as usinas térmicas, tem dificuldade em obter combustível (gás e óleo) para funcionar.

Por isso, a declaração de Kelman sobre a possibilidade de racionamento já neste ano trouxe tanto nervosismo. Na reunião com Lula, os argumentos do diretor da Aneel foram bombardeados por Hubner, pelo presidente da Empresa de Planejamento Energético (EPE), Maurício Tolmasquim, e pelo presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp. Dilma, que deveria estar em férias naquele dia, também estava presente.

Segundo comentários que correm no Planalto, Lula não deu bronca em Kelman. Ao contrário, procurou preservá-lo. Contam assessores que o presidente costuma ser cauteloso quando aparece, dentro do governo, uma informação diferente da que ele vinha recebendo.

INVESTIMENTOS

O foco dos debates na cúpula do governo é quais investimentos deverão ser antecipados para evitar o racionamento. Avalia-se que o ponto crítico de abastecimento não é 2008, e sim 2009. Ou seja, há chances de colocar em funcionamento empreendimentos que minimizem o risco de apagão, como térmicas a carvão.

Para Mascarenhas, da CNI, o governo já deveria estar tomando outras decisões na área, como regulamentar o uso da biomassa para geração termoelétrica.

No curto prazo, porém, a saída é rezar, disse o vice-presidente da CNI. ¿Dizemos que estamos na fase religiosa: o que nos resta é pedir a Deus que mande chuva, porque não há providência técnica a ser tomada.¿

Ainda assim, uma crise que leve ao corte de fornecimento é pouco provável. Segundo Mascarenhas, o sistema elétrico brasileiro passou por ajustes após a crise de 2001. No passado, havia energia suficiente no Sul do País e escassez nas outras áreas. Com a construção de linhas de integração do sistema elétrico, esse problema já não ocorrerá.

Isso não significa que o País esteja livre de problemas. O risco de escassez já elevou o preço da eletricidade. Num quadro agudo, as indústrias poderiam até cortar sua própria produção para não arcar com os custos elevados. É, segundo explicou, um quadro semelhante ao que se viu na Argentina em 2007: mesmo com falta de energia, não houve cortes, porque o setor produtivo restringiu o consumo.

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