Título: Feijão sofre com a estiagem e destoa do otimismo geral
Autor: João Domingos
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/01/2008, Economia, p. B9
Atraso no início das chuvas já provocou quebra de 30% na safra de 3 grandes regiões produtoras
Ao contrário do restante do setor, os produtores de feijão não têm razões para comemorar. O atraso no início da estação chuvosa e a inconstância das chuvas na região de Cristalina e Formosa, em Goiás, e em Unaí, Minas Gerais, já provocaram a quebra de 30% da safra da cultura nas três cidades, todas grandes produtoras. Mas o prejuízo pode ser maior. ¿Calculo que a perda na região pode chegar a 50%¿, disse ao Estado o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Macel Caixeta.
As três cidades ficam perto de Brasília, em terras altas, mais frias, conhecidas por produzir feijão de melhor qualidade. Em Catalão, ao sul de Goiás, a perda deverá ser de 50%. Caixeta foi, ele próprio, vítima do atraso das chuvas. ¿Plantei 20 hectares de feijão em Vianópolis (100 quilômetros a nordeste de Goiânia) e perdi 100%. Não há mais nada a fazer.¿
Caixeta lembrou ainda que a produção de milho em Goiás terá problemas daqui a uns dois meses. Por causa do atraso nas chuvas - a primeira caiu na região em 30 de outubro, quando o normal é que comecem em setembro - a safrinha de milho deixará de ser plantada no sudoeste do Estado, principalmente em Rio Verde, Jataí, Mineiros e Montividiu, grandes produtores. ¿Não haverá tempo para plantio.¿ Com isso, o feijão, que subiu cerca de 200% ao consumidor nos últimos meses, alcançando mais de R$ 6 o quilo, deve continuar caro, prevê Caixeta.
Com base nos dados de perda de safra, Caixeta contestou previsão do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que prevê crescimento de 3,1% na produção brasileira de grãos em relação ao ano anterior, chegando a 135,8 milhões de toneladas (a RC Consultores projeta 139 milhões). ¿Torço para que o IBGE esteja certo, porque quero uma safra muito maior. Mas acho irresponsável fazer previsão agora, sabendo dos problemas de clima.¿
¿Como a primeira chuva só ocorreu no dia 30 de outubro, o produtor de feijão de Cristalina, Formosa e Unaí plantou 80% de suas sementes em 15 dias. Como ocorreu um veranico superior a duas semanas no fim de dezembro e começo de janeiro, o feijão não agüentou¿, disse o presidente do Sindicato Rural de Cristalina, Vitor Simão. Segundo ele, sem chuva em setembro e em outubro, o déficit hídrico na região era muito grande. As chuvas de novembro e dezembro - que foram poucas - não conseguiram repor água nos lençóis freáticos. O município de Cristalina tem a maior área irrigada da América Latina, com 43 mil hectares e 512 pivôs centrais.
Os produtores têm represas próprias e plantam o ano todo. Quando o feijão é colhido, a área é substituída pelo trigo, em processo de rodízio. Neste ano, a intenção é plantar trigo em 8 mil hectares. ¿É sair o feijão e entrar o trigo¿, disse Simão, que vai plantar 400 hectares.
Como Cristalina está 800 metros acima do nível do mar, o clima é frio e o trigo é irrigado, a produção é de 6 toneladas por hectare, superior à da Argentina e do Sul do Brasil. Além do mais, segundo Vitor Simão, o trigo é tão puro - colhido durante a seca - que, para usá-lo para produzir, pão é necessário misturar farinha inferior.
Cristalina tem o maior Produto Interno Bruto (PIB) agrícola de Goiás. É o maior produtor de batata-inglesa do País e o segundo de tomate. Tem um rebanho bovino de cerca de 90 mil cabeças - o Estado de Goiás todo tem 22 milhões.
¿Todo ano que tem o fenômeno `La Niña¿, como este, as chuvas são irregulares. Mas este está muito pior. Nossa região sofre ainda com os problemas de desmatamento iniciado há décadas¿, disse Hely Roberto Maurício, plantador de feijão, soja, milho e sorgo em Cristalina. Com 70 anos, está na região há 23. ¿Cinco represas que nunca secavam. Neste ano, com o atraso das chuvas, uma delas já está sem água.¿
Se a situação do feijão nas áreas altas próximas a Brasília e em Catalão é ruim, e a do milho do sudoeste pode piorar, a da soja e da cana-de-açúcar é considerada boa. O atraso e a inconstância das chuvas não atingiram os produtos. ¿A soja agüenta seca de 20 a 25 dias¿, disse Simão. ¿Com a chuva, se recupera.¿
O grande produtor Leonardo Mendonça confirma. ¿Plantei 16 mil hectares nas terras altas de Cristalina e Campo Alegre. A soja está uma beleza, sem praga.¿
Em Rio Verde, não houve perdas do plantio, apesar do atraso e da inconstância das chuvas. ¿O milho e a soja estão muito bonitos, viçosos, uma graça¿, disse o presidente do Sindicato Rural da cidade, Byron Araújo. Segundo ele, poucos plantam feijão por lá. ¿Esperamos uma safra muito boa e, pelo jeito, este será o ano do produtor, porque o preço da soja e do milho está espetacular.¿
Apesar dos problemas no feijão e da possibilidade de que a safrinha de milho não seja plantada a tempo, as regiões sul e sudoeste de Goiás estão verdes. As plantações, em muitos casos, desaparecem no horizonte. É um mar verde-escuro, algumas vezes interrompido por uma área montanhosa ou pelas centenas de buritis, majestosas palmeiras que resistiram ao desmatamento e ocupam as veredas das terras altamente produtivas da região.
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