Título: Servidor compra até na Feira do Paraguai
Autor: Fontes, Cida ; Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/02/2008, Nacional, p. A5
Registros no Portal da Transparência mostram gastos com cartão em feira da pirataria em Brasília
Ana Paula Scinocca e Leonardo Goy, BRASÍLIA
O cartão corporativo do governo federal foi usado até na famosa Feira do Paraguai, em Brasília, conhecido centro de produtos contrabandeados. Os valores das compras são pequenos, mas os depoimentos de feirantes e vendedores de lojas visitadas ontem à tarde pela reportagem do Estado indicam que há desvio de finalidade no uso do cartão.
O registro das compras na feira - onde nem tudo é contrabandeado ou falsificado - está no Portal da Transparência, em nome de auxiliares do Planalto. Um dos gastos registrados com fatura foi feito no estabelecimento de propriedade de um comerciante de origem chinesa. Na loja, com o nome fantasia Século XXI, só um produto está à venda: óculos de grife falsificados.
Em dezembro de 2006, segundo o Portal da Transparência, a funcionária do Planalto Ariene M. V. Menezes fez uma compra na Século XXI, com cartão corporativo, no valor de R$ 40. O box - como são chamadas as pequenas lojas, similares aos Promocenters de São Paulo - pertence a Zhang Hong Lang. No registro da Receita Federal aparece o nome de Zheng Chunliang. A rotatividade nas lojas é muito grande, confirmaram três funcionários da Feira do Paraguai à reportagem.
Ainda em nome de Ariene foram registradas outras compras em boxes do paraíso da pirataria na capital federal. No dia 7 de maio do ano passado ela gastou, com cartão corporativo, R$ 140 na loja de Marcelo Ferreira de Souza, a Point Canetas. No local são vendidas canetas e materiais de papelaria. Outra compra foi feita no mesmo estabelecimento no dia 19 de abril de 2007, no valor de R$ 70.
Um dos feirantes contou, sob condição de não ter o nome revelado, que é comum funcionários comprarem com cartão corporativo aparelhos eletrônicos para os filhos, como MP3 e MP4. A proprietária de uma das lojas da feira afirmou que os compradores diziam que, como estavam usando cartão corporativo, a nota não poderia sair com a discriminação desses produtos. E simplesmente pediam para que na especificação da compra constasse material de consumo.
Além do registro de compras em lojas da feira dos importados, outro funcionário palaciano, Haroisio Oliveira, fez compras, ainda segundo o Portal da Transparência, em loja especializada em produtos médicos (como cadeiras de rodas e balanças para banheiro) e ortopédicos. No dia 16 de fevereiro do ano passado, Oliveira gastou R$ 540, pagos com cartão corporativo, na Tiradentes Médico Hospital, localizada na Asa Sul. Um dia antes, na mesma loja, já havia consumido R$ 399,75. O funcionário também fez compras em outra loja de artigos médicos em 2006. No dia 9 de agosto daquele ano Oliveira desembolsou R$ 396 na Hospitália, também na Asa Sul. O estabelecimento voltou a ser freqüentado por ele em fevereiro passado. Dessa vez, o gasto foi de apenas R$ 41,80.
A Casa Civil, onde estão lotados Ariene Menezes e Haroisio Oliveira, informou que atualmente apenas a primeira possuiu cartão corporativo. E justificou as compras na Feira do Paraguai alegando que ¿são de pequeno vulto e se destinam a atender necessidades diárias das diretorias de Administração¿. Segundo a assessoria de imprensa da Casa Civil, na feira foram adquiridos míni-CDs, CDs e baterias para celulares. Ainda segundo a Casa Civil, a substituta de Ariene para uso do cartão corporativo é Gisele Figueiredo. ¿Em outro momento o servidor Haroisio Oliveira foi substituto de Ariene¿, informou.