Título: Obama e a mística dos Kennedys
Autor: Brooks, David
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/02/2008, Internacional, p. A13
Algo fundamental mudou no Partido Democrata. Na semana passada, houve uma reação generalizada às tentativas venenosas dos Clintons de relegar Barack Obama ao gueto. Em privado e ocasionalmente em público, os democratas mais ilustres perderam a paciência com o estilo de política hiperpartidário - a distorção dos fatos, a demonização dos inimigos, a admiração secreta pela disputa violenta e a sempre presente suposição de que é necessário poluir a esfera pública para ganhar. Todas as suspeitas reprimidas do narcisismo Clintoniano voltaram ao primeiro plano. Será que essas pessoas estão servindo a grande causa do Partido Democrata ou estão usando o partido como um veículo para uso próprio?
E então, na segunda-feira, algo igualmente espantoso aconteceu. Um bando de Kennedys foi à American University, em Washington, para apoiar a candidatura de Obama. Caroline Kennedy evocou o pai. O senador Edward Kennedy citou a história recente do Partido Democrata.
O apoio dos Kennedy ajudará entre os democratas da classe trabalhadora, os católicos e os milhões de americanos que acompanharam a trajetória de Caroline até a maturidade. Além disso, ali estava o senador Kennedy, o perfeito artífice do Legislativo, dando seu testemunho de que Obama está preparado para ser presidente.
Mas o evento foi surpreendente por outro motivo, tendo a ver com a confluência de temas e gerações. Os Kennedys e Obama batem nos mesmos contrastes repetidas vezes nos seus discursos: o caminho ético versus o antiético; inspiração versus cálculo; futuro versus passado; e, acima de tudo, serviço em vez de egoísmo.
¿Com Barack Obama, viraremos a página da velha política da farsa e da distorção¿, declarou o senador Kennedy. ¿Com Obama, há um novo líder nacional que tem dado à América um tipo diferente de campanha - uma campanha não apenas sobre si mesmo, mas sobre todos nós¿, disse. Os Clintons começaram esta luta e, com seu modo nobre e elegante, Kennedy rebateu com um discurso.
Kennedy continuou falando sobre os anos 60. Mas não falou muito sobre o final dos anos 60, quando Bill e Hillary surgiram no ativismo político. Ele falou do início da década de 60, do idealismo da geração que tinha visto a 2ª Guerra, da que marchou de terno e gravata e o de uma geração cujo ativismo foi relativamente pouco caracterizado pelo uso de drogas e auto-indulgência.
¿Houve um outro tempo quando outro jovem candidato estava concorrendo à presidência e desafiando os EUA a cruzar a Nova Fronteira¿, disse Kennedy. Mas, continuou ele, um outro presidente democrata, Harry Truman, disse que ele devia ter paciência. Disse que lhe faltava experiência. Ao que John Kennedy replicou: ¿O mundo está mudando. Os velhos costumes não servirão!¿
A platéia da American University veio abaixo. Era formada na sua maioria por jovens e, para eles, os Clintons são tão velhos quanto os Trumans eram na década de 60. E pelo êxtase dos estudantes com a mensagem de Kennedy, você começa a ver o encontro de gerações, a de John e Robert Kennedy com a geração da Campanha One (organização apartidária que luta contra a extrema pobreza). Os avós e os filhos unidos contra os pais.
Como pôde o septuagenário Kennedy jogar os Clintons, mais jovens, no passado? Ele conseguiu fazer isso porque evocou a Nova Fronteira que, mais uma vez, parece nova. Conseguiu fazer isso, pois ele próprio tem levado uma vida de servidão.
Depois da sua juventude, Kennedy deu-se conta de que a vida não lhe daria a oportunidade de ser presidente. Mas a vida pediu-lhe que fosse um senador e ele tem abraçado este papel e servido essa instituição com mais dignidade do que qualquer outro que esteja vivo, como qualquer um de seus colegas, republicanos e democratas, pode atestar. O respeito pelas instituições durante o início da década de 60 predomina entre os jovens de hoje, novamente. A consciência de que não somos individualistas que se fizeram por si mesmos, livres para ser você e eu, mas emergir como peças de redes, web e comunidades; esta consciência está de volta hoje.
O 11 de Setembro realmente deixou um resíduo - um desejo não consumado por sacrifício e servidão. O estilo clintoniano antigo de fazer política entra em choque com esse desejo. Quando Sidney Blumenthal expressa a crença de Clinton dizendo a George Packer, da revista The New Yorker: ¿Não é uma questão de transcender o partidarismo. É uma questão de satisfazê-lo¿, isso colide com o esse desejo, também. Não se sabe até que ponto esse estado de espírito público mudado levará Obama nesta eleição. Mas houve algo importante e memorável na maneira como o Kennedy de 75 anos entrou em comunhão e estabeleceu uma ligação com uma platéia empolgada meio século mais jovem. O cara velho roubou o espetáculo.
*David Brooks é colunista do New York Times
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