Título: Resultados da Superterça expõem divisão do eleitorado democrata
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/02/2008, Internacional, p. A10

Eleitores de Hillary e Obama escolhem candidato com base em raça, idade e gênero, e não por posições políticas

Tecnicamente empatados em número de delegados, a senadora e ex-primeira-dama Hillary Clinton e o senador Barack Obama preparam-se para uma longa batalha que pode se estender até a convenção nacional democrata, no final de agosto, e ameaça rachar o partido nas eleições presidenciais de novembro. Segundo os resultados da Superterça, Hillary ganhou na Califórnia, Nova York e New Jersey - Estados importantes - e em outras cinco prévias, mas Obama venceu em um número maior de Estados (13) e pode acabar com mais delegados.

Confrontados com dois candidatos emblemáticos - uma mulher branca e um homem negro -, os democratas estão divididos por raça, idade e gênero, e não por políticas, que são muito parecidas nas duas campanhas. Na Califórnia, por exemplo, Obama ganhou entre os negros, eleitores com formação superior e renda acima de US$ 50 mil por ano. Hillary venceu entre hispânicos, eleitores sem curso superior completo e de baixa renda. Obama teve a preferência dos homens brancos. Hillary, das mulheres brancas.

Na maioria dos Estados, Hillary foi melhor com eleitores brancos mais velhos, enquanto Obama venceu entre os jovens. Obama ganhou 82% dos votos dos negros em New Jersey e 87% na Geórgia. Mas também venceu em Estados de maioria branca, como Idaho e Utah, e teve mais votos de eleitores brancos na Califórnia do que Hillary, que levou o Estado graças aos latinos. Hillary ganhou seis de cada dez votos hispânicos, que representam praticamente a mesma proporção dos votos democratas entre os negros. Ela herdou eleitores de baixa renda que votariam em John Edwards (fora da disputa), enquanto Obama ficou com parte dos homens brancos.

¿Hillary tem mais ou menos metade do partido em sua coalizão e Obama tem a outra metade¿, disse ao Estado o estrategista democrata Bill Carrick. O senador fez progressos entre eleitores homens brancos na Geórgia e latinos no Arizona, e Hillary conquistou jovens com educação superior. ¿Mas a disputa continua polarizada¿, diz Carrick. A vitória na Califórnia foi importante para Hillary interromper o embalo que Obama vinha ganhando desde as prévias na Carolina do Sul. Mas Obama surpreendeu ao vencer no Missouri, Estado famoso por ¿antecipar¿ os nomes dos futuros presidentes.

Hillary arrecadou significativamente menos que seu rival em janeiro - US$ 13,5 milhões diante dos US$ 32 milhões de Obama - e revelou ontem que emprestou US$ 5 milhões de seu bolso para a campanha.

É difícil que qualquer dos candidatos ganhe de lavada alguma das próximas primárias. No sábado votam os Estados de Louisiana, Nebraska e Washington. Na terça-feira, ocorrem primárias em Washington DC, Virgínia e Maryland, onde Obama tem vantagem por causa da grande população negra. Já em Ohio e no Texas, que fazem suas primárias em 4 de março, a senadora está na frente. Os dois também estão de olho nos mais de 700 superdelegados, integrantes do alto escalão do partido que têm direito a voto na convenção (ler abaixo). Se Obama e Hillary chegarem até a convenção com número muito próximo de delegados, eles podem decidir a disputa. O comitê de Obama já afirmou que protestará se o establishment do partido for incumbido de decidir o indicado (Terry McAuliffe, coordenador da campanha de Hillary, e o ex-presidente Bill Clinton, seu marido, são superdelegados).

De qualquer modo, o indicado terá de conquistar os eleitores do rival, o que será difícil nesta eleição polarizada. Hillary arriscou-se a perder o voto negro após os ataques de Clinton a Obama na primária da Carolina do Sul. Muitos afirmam que não votarão se ela for a indicada do partido. O mesmo pode acontecer com Obama em relação aos hispânicos. E quem ganha com o racha é o Partido Republicano.