Título: Filho loiro assume comando após prisão da mulher de Beira-Mar
Autor: Auler, Marcelo
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/02/2008, Metrópole, p. C3
Liberado pela PF por falta de mandado de prisão, Marcelinho Niterói refugiou-se na Mangueira
Marcelo Auler
Assim como a Estância Campanaí com as cabeças de gado e tilápias, a estrutura montada por Fernandinho Beira-Mar para trazer maconha e cocaína para o Brasil sobreviveu à prisão do chefão, detido desde abril de 2001, e de 24 integrantes do bando, ocorrida em novembro, na Operação Fênix. A renovação foi rápida. Hoje a quadrilha é liderada por aquele a quem Beira-Mar chama de ¿filho loiro¿: Marcelo da Silva Leandro, o Marcelinho Niterói. Fernandinho fica por trás das operações, como um fiador, graças à sua ¿grife¿.
¿Beira-Mar já tem nome¿, diz, sob o compromisso de anonimato, um dos cinco procuradores federais do Paraná que assinaram a denúncia enviada à Justiça após a Fênix. ¿Consegue droga `em consignação¿, mesmo sem dinheiro.¿
O pior é que Beira-Mar nem precisa usar o ¿bom nome¿ na praça. Pela simples razão de que lhe sobra dinheiro. Nas 34 buscas realizadas na Fênix foram apreendidos US$ 134,4 mil e R$ 52 mil. Valores modestos, por exemplo, perto do que Beira-Mar e comparsas são acusados de movimentar num único processo que corre na 3ª Vara Federal de Campo Grande: R$ 12 milhões, em apenas dois anos.
A PF não encontrou maiores pistas de onde Beira-Mar investiu a bolada do tráfico. Ainda que, na Fênix, tenha prendido pessoas importantes da quadrilha, como a mulher do chefão, Jaqueline de Moraes Costa, e o irmão dela, Ronaldo. Os dois chefiavam o grupo desde o desaparecimento, em junho, do advogado João José de Vasconcelos Kolling - ele é dado como morto, após ter sido flagrado dando um desfalque no ¿patrão¿.
Mas a PF passou longe dos paraguaios da quadrilha. Entre eles estão Nestor Baez e Nelson Mendonza, o Tio Nelson. Segundo a denúncia da Fênix, eles repassam ao bando a cocaína recebida de Barrancominas, região colombiana onde Beira-Mar se escondeu nos anos 90, abrigado pelos narcoterroristas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
A polícia tampouco prendeu o ¿filho loiro¿ de Beira-Mar, que, segundo a denúncia dos procuradores, era o ¿gerente financeiro da organização¿ até a Fênix lhe abrir o caminho para o comando. Marcelinho chegou a ser detido no Paraguai duas vezes, a última em julho, num carro com três comparsas, que levavam armas pesadas. O porte dessas armas lá é um ilícito mais leve que no Brasil, punido com multas. Marcelinho foi, então, entregue à PF, que o soltou, alegando que ele já havia cumprido suas penas e não existia mandado de prisão contra ele. Refugiou-se no Morro da Mangueira, Rio, de onde saiu antes da operação que destruiu um bunker do tráfico, em janeiro.
Marcelinho acompanhava as andanças de Beira-Mar no Paraguai desde meados dos anos 90. O chefão refugiou-se em Capitán Bado - vizinha de Coronel Sapucaia (MS), apontada como a cidade mais violenta do Brasil na última edição do Mapa da Violência - em 1997, após escapar da carceragem do Departamento Estadual de Operações Especial (Deoesp), em Belo Horizonte. Aliás, escapar não é bem o termo. Beira-Mar saiu pela porta da frente.
Quem abrigou o chefão em Capitán Bado foi seu então fornecedor de maconha, João Morel, brasileiro radicado havia anos no Paraguai. Hospitaleiro, ofereceu-lhe a casa da amante, Terenzia. ¿Beira-Mar descobriu que a polícia, o juiz e o fiscal (promotor), todos eram baratos¿, afirma o ex-governador da Província de Amambay, Roberto Acevedo. ¿Ele trouxe os pretinhos que andavam com armas pesadas em caminhonetes, engravidavam as meninas, davam presentes e faziam festas.¿
Beira-Mar descobriu também que o apetite dos traficantes locais era pequeno perto do seu. Só existia a venda de maconha, feita por um grupo de ¿bons companheiros¿: Morel e os filhos (Ramon e Manoel), Magno Rios, Lino Palácios, Quelká Sanches e o brasileiro Carlos Cabral, o Líder Cabral. ¿Com Beira-Mar começou o tráfico de cocaína pelo Paraguai. Ele passou a trazer a droga da Colômbia e outros o seguiram¿, diz Acevedo. Entre os seguidores, outros brasileiros, como Jarvis Pavão, Erineu Soligo e Luiz Carlos da Rocha - hoje donos de fazendas perto da Campanaí.
Beira-Mar quis dominar o tráfico local de vez e deu início a uma guerra. A seu mando foram mortos João Morel, executado na Penitenciária Estadual de Mato Grosso do Sul, e os filhos. Também ordenou uma emboscada para matar Cabral. O bandido escapou, mas perdeu o filho de 3 anos, e jurou vingança.
A concentração de traficantes na fronteira atraiu a atenção da PF. Em fins dos anos 90, agentes brasileiros e a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) do Paraguai fecharam o cerco ao chefão.Beira-Mar mudou-se para a selva colombiana, em 1999. Lá foi preso, em abril de 2001, nos domínios das Farc.
Desde então, Beira-Mar já rodou por oito cadeias de vários Estados. O que não o impediu de continuar tocando seus negócios - na maioria das vezes, usou celulares ou bilhetes entregues a visitas, os ¿telegramas¿. Graças a grampos de telefonemas, a polícia descobriu detalhes da organização. ¿Eram dois grandes grupos independentes¿, diz a denúncia da Procuradoria. O primeiro era composto por Alexsandro Cardoso, o Tarta, já morto, e por Ubiratã Brescovit, o Boticário. Piloto, Brescovit cuidava do transporte e arranjava fazendas para o pouso dos dois aviões desse núcleo da quadrilha. O outro grupo, chefiado pela então estrela ascendente Marcelinho Niterói, tinha direito a um avião.
Aos grupos de Tarta e Marcelinho cabia ainda outra incumbência. A compra da ¿vacina¿ - a lidocaína e cafeína usadas para ¿batizar¿ a cocaína, aumentando a quantidade para revenda.
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