Título: Na UE, o pior dia desde 11 de setembro
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/01/2008, Economia, p. B3

Mercado europeu completou seis semanas de perdas consecutivas

Jamil Chade

O temor de uma recessão nos Estados Unidos derrubou as bolsas européias, provocou pânico nas principais praças financeiras do continente e obrigou os ministros de Finanças do 15 países do bloco da zona do euro a discutirem medidas para tentar conter os prejuízos. O dia foi de comprovação - tanto para os políticos como para os investidores - de que a crise americana cruzou o Atlântico para se instalar na Europa.

Ontem, as bolsas européias tiveram as maiores perdas desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, com prejuízos equivalentes a todo o PIB da Romênia e Irlanda juntos. O mercado financeiro europeu ainda completou seis semanas de perdas consecutivas, algo que não ocorria desde outubro de 1998.

A perspectiva de novas perdas entre as instituições financeiros levou muitos investidores a se desfazerem de suas ações. O índice Euro Stoxx 50 - que mede o desempenho na zona do euro - caiu 5,5%, puxado pelos prejuízos em seguradoras e bancos como a Allianz e Societé Generale, com perdas de 7,8%. As ações do banco francês já haviam sofrido queda de 8% na sexta-feira. O índice FTSEurofirst 300 - que reúne as principais ações das empresas européias - caiu 5,79%.

Na França, a Bolsa de Paris fechou com uma queda de 6,8%, com o Credit Agricole despencando 7% e o BNP Paribas outros 8,5%. Em Frankfurt, a queda nas ações foi de 7,1%, e em Londres, de 5,48%. Na Espanha, a Bolsa de Madri caiu 7,5%, enquanto em Milão a queda foi de 4,8% e em Lisboa, de 5,8%.

Especialistas em Zurique deixaram claro que o pacote do presidente americano George W. Bush não provocou o entusiasmo necessário nem a confiança dos investidores de que a crise poderá ser evitada.

Um relatório do banco Julius Baer, de Zurique, ainda indicou que a previsão é de que a situação pode se deteriorar ainda mais nas próximas semanas. Uma recuperação estaria prevista apenas para o início do próximo trimestre.

Ontem, os grandes perdedores foram os bancos, com os maiores prejuízos desde 2002. Na Suíça, o Credit Suisse perdeu 6%, ante 4,4% do UBS. Os dois bancos haviam tido perdas históricas nos últimos meses. Na Alemanha, as ações do Deutsche Bank caíram 6,8%. Na Bélgica, a empresa de serviços financeiros Fortis viu suas ações despencarem 12%.

Empresas ligadas à construção civil também sofreram prejuízos. Esse foi o caso da inglesa Wolseley, com queda de 4,5% em suas ações. A empresa fornece material de construção para o mercado americano.

Para as autoridades européias, o dia foi de tensão. O ministro de Finanças da Espanha, Pedro Solbes, não escondia que estava ¿preocupado¿. ¿A queda nas bolsas não é boa notícia¿, afirmou o comissário para Assuntos Econômicos e Monetários da União Européia (UE), Joaquín Almunia. Ele tentou mostrar confiança de que a economia européia é hoje menos dependente dos acontecimentos dos Estados Unidos que no passado e, por isso, poderia sobreviver à turbulência. Mas não descartou a necessidade de medidas do governo americano para evitar a recessão.

Os indicadores europeus não são nada otimistas. A Europa, que espera crescimento de 2,2% para este ano, deve rever a taxa para 1,8%, a menor desde 2005. A produção industrial apresenta um desempenho que já permitiu que alguns especialistas declarassem uma recessão, a primeira desde 2001. A inflação também é um temor. Nos últimos dois meses, atingiu 3,1% no continente, a maior desde maio de 2001 e bem acima das metas do Banco Central Europeu.