Título: Violência arrasa oeste do Quênia
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/01/2008, Internacional, p. A19

Em fúria, bandos armados perseguem e matam moradores de etnias rivais em cidades que antes eram turísticas

AP, NEW YORK TIMES E REUTERS

Nairóbi - Milhares de jovens carregando machetes e pedras tomaram ontem as ruas de diversas cidades no oeste do Quênia, incendiando casas e veículos, saqueando lojas e apedrejando escolas para perseguir e matar integrantes da etnia kikuyu - a mesma do presidente, Mwai Kibaki. Um motorista de uma van foi queimado vivo após um bando descobrir que ele era kikuyu.

Os ataques foram em retaliação à violência do fim de semana, quando mais de 100 pessoas morreram - a maioria da tribo luo, do líder opositor Raila Odinga, do partido Movimento Democrático Laranja (MDL).

Os piores confrontos ocorreram na Província do Vale Rift, no oeste do país, para onde a violência se espalhou nas últimas semanas, após explodir na capital Nairóbi, quando a oposição acusou o presidente Mwai Kibaki de fraudar as eleições do dia 27 de dezembro, na qual ele foi reeleito.

Nas principais cidades da região, como Naivasha, Kisumu e Nakuru - que antes atraíam milhares de turistas por causa de suas belas paisagens -, poucos policiais atiravam para cima na tentativa de restaurar a ordem. ¿Queremos encontrar um kikuyu para esquartejá-lo como uma vaca¿, disse David Babgy, de 24 anos, que juntamente com outros 50 jovens estava incendiando carros e destruindo postes em Kisumu.

Testemunhas contaram que uma multidão invadiu uma escola primária na cidade, levando mesas, cadeiras, livros e até portas e janelas. Canais de televisão quenianos mostraram dezenas de crianças aterrorizadas fugindo das salas de aula. Em Naivasha, policiais fizeram uma barreira para separar manifestantes luos e kikuyus, que atiravam pedras e pedaços de madeira.

No total, ao menos 20 pessoas foram mortas ontem, no dia em que o governo elevou para 800 o número total de mortos no conflito, embora a oposição afirme que mais de mil pessoas já morreram.

Cerca de 300 mil quenianos também foram obrigados a fugir de suas casas. Em bairros e cidades que costumavam abrigar várias tribos, grupos que formam a maioria está expulsando moradores de outras etnias. Com isso, organizações internacionais vêm alertando para o fato de que o país está sendo dividido e o que se vê em muitas áreas é uma verdadeira limpeza étnica.

O conflito, que começou há um mês como uma crise política, está cada vez mais se transformando em um confronto étnico, inflamado pela longa tensão entre as etnias em relação ao domínio de terras, oportunidades econômicas e ao acesso ao poder.

Isso porque os kikuyus dominam, desde a independência, os negócios e a política no país, causando revolta entre as tribos rivais, principalmente os luos e os kalenjins - as maiores entre as mais de 20 etnias quenianas.

Mesmo antes das eleições, já havia disputas por terra e por empregos no Vale Rift, região no oeste do país onde a violência explodiu nas últimas semanas. As eleições acabam funcionando como um catalisador das tensões, já que predomina no país a prática do empreguismo político, em que os vencedores distribuem cargos e benefícios a amigos e aliados.

Após uma semana no Quênia, até então considerado um promissor país africano, o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan está obtendo poucos avanços em sua mediação para pôr fim ao banho de sangue. Ele conseguiu que Kibaki e Odinga se reunissem, mas sem chegar a um consenso sobre possíveis saídas para o impasse.

¿Não há progresso (no processo de pacificação) porque o ódio de um lado em relação ao outro está crescendo exponencialmente¿, disse Mark Malloch-Brown, ministro para África da ONU, que está visitando cidades quenianas.

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