Título: Seca colaborou para o aumento dos índices
Autor: Escobar, Herton
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/01/2008, Vida, p. A28
Fim de ano sem chuva pode ter prorrogado período de derrubada de árvores, que ocorre mais na estiagem
A mesma falta de chuvas que colocou em risco o abastecimento de energia do País no final de 2007 pode ter sido determinante para o aumento do desmatamento na Amazônia nos últimos dois meses do ano. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram uma redução significativa dos níveis de precipitação sobre as áreas desmatadas nos meses de novembro e dezembro, quando a intensificação das chuvas normalmente empurra os índices de desmatamento para baixo.
Tipicamente, a derrubada de árvores na Amazônia é mais intensa entre maio e agosto, no fim da estação chuvosa e início da estação seca. Em seguida vem o fogo, com o pico das queimadas entre agosto e outubro. De novembro em diante, as chuvas retornam e o desmatamento se recolhe.
Não foi assim em 2007. O mês com desmatamento mais elevado foi junho, como de costume. Porém, a partir de novembro, em vez de cair, os números dispararam. Segundo os dados do Inpe, a área desmatada saltou de 457 km² em outubro para 974 km², em novembro, e permaneceu alta em dezembro, com 948 km² de floresta derrubada.
Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, isso dificilmente poderia ter ocorrido não fosse pela estiagem prolongada que atingiu o País em 2007. As chuvas mais pesadas demoraram a chegar a Amazônia, permitindo que as atividades predatórias continuassem por mais tempo do que de costume.
¿Está claro que a chuva ficou bem abaixo da média em várias regiões¿, disse o meteorologista Gilvan Sampaio, do Inpe. Os mapas de precipitação de novembro e dezembro mostram redução de mais de 50% nos índices de precipitação sobre vários municípios onde houve desmatamento no período, em comparação à média histórica de chuvas para a região. ¿O clima certamente ajudou, mas sem um estudo mais detalhado, é apenas especulação¿, avalia, cauteloso, o especialista Carlos Nobre, também do Inpe.
O desmatamento normalmente ocorre no primeiro semestre para dar tempo de a vegetação secar antes das queimadas (usadas para ¿limpar¿ a área), o que pode levar até três meses, segundo Nobre. Com a chegada da chuvas, a logística do desmatamento fica seriamente dificultada.
¿O que possibilita tudo é o acesso à área¿, diz Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). ¿Por mais equipamento que você tenha, fica muito difícil operar dentro da floresta com chuva. Os caminhões simplesmente atolam; o custo operacional fica muito alto.¿
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