Título: Matilde deu impulso decisivo à política de cotas
Autor: Nossa, Leonencio; Goy, Leonardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/02/2008, Nacional, p. A4

Lula mal a conhecia quando recebeu carta sugerindo seu nome para assumir a secretaria

A assistente social Matilde Ribeiro, de 47 anos, chegou ao cargo de ministra, em março de 2003, graças a duas credenciais: era militante do movimento negro e filiada ao PT. Não foi uma escolha direta do presidente Lula. Na verdade ele mal a conhecia até janeiro de 2003, quando recebeu uma carta assinada por representantes do movimento negro, próximos ao PT, que estavam reunidos em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial.

Na carta, eles indicavam o nome de Matilde para a Secretaria da Igualdade Racial - uma promessa de campanha. Com a indicação aceita, ela deixou de lado os estudos de sua tese de doutorado, na PUC de São Paulo, para onde deve voltar agora.

Matilde é filha de agricultores que, embora analfabetos, sempre fizeram questão que os filhos estudassem. Ela costuma dizer que trabalhou desde os 14 anos para poder pagar seus estudos e que só foi conhecer a Europa depois que se tornou ministra.

Entre representantes de movimentos sociais, é lembrada não só pela defesa da causa dos negros, mas também pela presença em organizações feministas. Entre outras atividades, fez parte do Movimento Nacional de Mulheres Negras.

À frente da secretaria, que tem um orçamento modesto, em torno de R$ 34 milhões, Matilde dedicou-se sobretudo a promover debates e encontros de representantes de comunidades negras em diferentes partes do País; e a estimular outros ministérios a desenvolverem políticas de combate às desigualdades.

A política de cotas raciais nas universidades federais e estaduais, iniciada no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, ganhou impulso de 2003 para cá. Em 2004, depois que Lula assinou o decreto que regulariza as terras onde vivem remanescentes de antigos quilombos, a secretaria passou a estimular essas comunidades a se organizarem.

Em dezembro de 2003, Matilde foi flagrada ao chegar a um encontro do Diretório Nacional do PT, no Hotel Blue Tree Park, em Brasília, usando um carro oficial. Questionada, disse que era ministra e militante petista ao mesmo tempo: ¿Estou ministra 24 horas por dia. Quando sair daqui vou para o Ministério de Relações Exteriores.¿

A maior polêmica causada por ela durante o período em que esteve à frente da secretaria ocorreu no ano passado. Em entrevista à BBC Brasil, lembrando os 200 anos da proibição do comércio de escravos pela Inglaterra, ela afirmou que ¿não é racismo quando um negro se insurge contra um branco¿. E explicou: ¿Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.¿

Muita gente entendeu que a ministra estimulava o preconceito de negros contra brancos. O episódio teve tanta repercussão que ela acabou reformulando e amenizando a frase.

No movimento negro não há unanimidade em relação ao desempenho de Matilde à frente da secretaria. A crítica mais freqüente que se ouve é a de partidarização da instituição. ¿Com o loteamento dos cargos entre a base política de apoio ao governo, a ministra deixou de lado a interlocução com o movimento negro¿, diz Dojival Vieira, do Movimento Brasil Afirmativo.

Para o professor e militante Hélio Santos, Matilde manteve-se até agora à frente da secretaria porque conseguiu estabelecer excelentes relações com o presidente Lula. ¿O setor moderno do movimento negro, que é apartidário, nunca se aproximou da secretaria¿, diz. ¿Em vez de estimular o movimento social, a secretaria serviu para desmobilizá-lo.¿

Em alguns setores já se articulam homenagens, uma espécie de desagravo, a Matilde. ¿No futuro ela não será lembrada por esse episódio do cartão, mas por toda contribuição que deu aos movimentos negro e feminista¿, diz Valkíria Silva, da Coordenação Nacional de Entidades Negras.