Título: Ministra da Igualdade Racial admite erro no uso de cartão e deixa cargo
Autor: Nossa, Leonencio; Goy, Leonardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/02/2008, Nacional, p. A4
Horas antes, no Planalto, Lula avisara Matilde que diante do escândalo não era mais possível mantê-la no governo
Pressionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, pediu ontem demissão do cargo. Em entrevista coletiva à tarde, a primeira desde que o escândalo das compras pessoais com cartão corporativo foi revelado pelo Estado, há 20 dias, ela disse não estar arrependida dos gastos - só com aluguel de carros foram R$ 175 mil, entre agosto de 2006 e dezembro do ano passado, um recorde na Esplanada dos Ministérios. O secretário-adjunto Martvs das Chagas assume interinamente a pasta.
Em conversa no início da tarde no Palácio do Planalto, Lula disse a Matilde que ela errou ao usar o cartão para compras pessoais e não era possível mantê-la. A ministra se emocionou e alegou ter sido inábil no controle dos gastos. ¿Ele iniciou a conversa dizendo que, pelas informações recebidas, houve um erro administrativo¿, relatou ela. ¿Foi uma conversa madura.¿ Na noite de quarta-feira, em audiência no Planalto, o controlador-geral da União, Jorge Hage, disse a Matilde que os indícios de irregularidade eram visíveis.
A ministra leu uma carta em que culpou dois funcionários por recomendarem o uso do cartão para pagar hospedagens, alimentação e locação de veículos (leia na página A6). Não informou o que comprou, por exemplo, num free shop. Assessores confirmaram que ela usou o cartão para adquirir produtos de consumo pessoal. ¿Não estou arrependida. Até então estava sendo orientada a usar o cartão como instrumento para essa agenda que eu tenho¿, afirmou ela.
¿PESAR¿
Segundo assessores, a demora em justificar as denúncias e pedir demissão irritou Lula. Em carta pública, porém, ele disse que Matilde fez um trabalho ¿extraordinário¿. ¿Foi com pesar que recebi hoje (ontem) seu pedido de demissão¿, escreveu. ¿Sei das imensas dificuldades, arraigadas por séculos de preconceito, que vossa excelência teve de enfrentar no exercício de suas funções.¿ Também por carta, Matilde agradeceu a Lula pela ¿confiança¿ e disse que também atuou em defesa de índios, ciganos, árabes e palestinos.
Ela avaliou que o preconceito agravou o escândalo. ¿Vivemos no mesmo Brasil, um país que ainda enfrenta o preconceito e o racismo, isso se percebe em atitudes cotidianas¿, afirmou. Mas, indagada se uma autoridade branca enfrentaria as mesmas críticas pelo uso incorreto do cartão, admitiu: ¿Diante de um erro administrativo, qualquer pessoa que o cometeu tem de responder por ele. Eu reconheci o erro e fui lá (ao Planalto) pedir meu desligamento.¿