Título: Brasil quer retomar mediação de reféns
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/02/2008, Internacional, p. A13
País tem apoio da França para reunir países em busca de acordo humanitário
Brasil e França querem remontar o grupo de países que tentou intermediar, em dezembro, a libertação de Clara Rojas e Consuelo González, ex-reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A revelação foi feita ontem, em Paris, pelo assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, após um encontro com representantes diplomáticos da França.
O grupo, então formado por Brasil, Argentina e Cuba - além de França, Suíça e Espanha, negociadores oficiais -, e da Venezuela, interlocutor com os rebeldes, intermediou com o auxílio de organizações não-governamentais a libertação das reféns, em janeiro. Se reorganizado, o grupo promoveria um esforço internacional para conseguir um acordo humanitário capaz de garantir a libertação dos 44 reféns políticos mantidos pela guerrilha. Entre os seqüestrados está a ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt.
A reunião em que a iniciativa foi debatida aconteceu na tarde de ontem, no Quai Branly, o Ministério das Relações Exteriores da França. Após o encontro com Daniel Parfait, diretor de Américas do ministério e marido de Astrid Betancourt, irmã de Ingrid, Garcia destacou a urgência do resgate dos reféns. ¿Estamos diante de uma situação humanitária muito difícil. Ingrid não está em boas condições de saúde¿, disse Garcia.
A reunião dos países no esforço diplomático, porém, só acontecerá com a aprovação do presidente colombiano, Álvaro Uribe, e com o conhecimento de seu homólogo venezuelano, Hugo Chávez. Uma das funções do grupo será garantir o diálogo entre os dois presidentes, prejudicado pelo rompimento de relações em dezembro. Outro desafio será superar o novo impasse criado por Uribe. Desde o dia 26, as Forças Armadas colombianas têm ordem de localizar e cercar os acampamentos das Farc nos quais houver reféns, uma forma, segundo o governo, de pressionar pela libertação. Sem mencionar o assunto, Garcia elogiou o líder colombiano. ¿O presidente Uribe tem muita capacidade política.¿
Garcia destacou ainda a capacidade de negociação de países como Cuba e Argentina no impasse e disse que o Brasil nunca exerceu um papel de intermediário entre o governo colombiano e as Farc por não ter interlocutores com os guerrilheiros.
Além do interesse humanitário, o governo brasileiro acredita que o eventual acordo de paz entre o governo e os guerrilheiros pode favorecer a integração da América Latina. ¿O problema dos reféns tem de ser resolvido para ajudar a integração sul-americana. O tema não ajuda e já criou um contencioso entre a Colômbia e a Venezuela¿, estimou Garcia, lembrando que um acordo complexo foi feito entre o Exército Republicano Irlandês (IRA) e o governo britânico para pôr fim ao conflito. ¿Se o acordo humanitário continuar na Colômbia, podemos ter a esperança de chegar a um acordo de paz no futuro.¿