Título: Bolívia não garante contrato de gás
Autor: Marin, Denise Chrispim ; Goy, Leonardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/02/2008, Economia, p. B4

Ministro quer que Petrobrás abra mão do fornecimento máximo de 30 milhões de m³ previsto para o inverno

Denise Chrispim Marin e Leonardo Goy

A Bolívia não vai garantir, entre junho e agosto deste ano, o fornecimento do volume máximo de gás natural previsto no contrato com a Petrobrás, de 30 milhões de metros cúbicos diários. A mensagem foi trazida ao governo pelo vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, considerado o ideólogo do governo Evo Morales.

Em visita oficial a Brasília, García Linera sugeriu uma possível restrição voluntária da demanda da Petrobrás no período do inverno. Essa medida evitaria que a Bolívia tivesse de pagar multa por descumprir o contrato. A decisão será tomada em um debate político entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Morales e a argentina Cristina Kirchner, no próximo dia 23, em Buenos Aires.

Ao longo de 1h10 de conversa com o presidente Lula, ontem, no Palácio do Planalto, García Linera deixou claro que a Bolívia manterá o volume médio de gás historicamente exportado ao Brasil, que é de 27 milhões de metros cúbicos diários, segundo a empresa brasileira. Mas não garantiu uma eventual demanda suplementar no inverno, que poderia alcançar até os 30 milhões de metros cúbicos, como prevê o contrato atual.

¿O volume de consumo histórico médio do Brasil está absolutamente garantido. O que está em debate são os volumes novos (de demanda)¿, repetiu à imprensa, em entrevista no Itamaraty. ¿É provável que haja um aumento da demanda do Brasil e da Argentina nos meses de inverno. Esses novos volumes serão objeto de um debate entre os presidentes. Eles verão a maneira de estabelecer um acordo regional que satisfaça a todos.¿

COBERTOR CURTO

No encontro Lula-Kirchner-Morales, o governo boliviano espera aliar-se à Argentina para novamente extrair do Brasil concessões políticas na área energética, como ocorreu em 2007. Naquela ocasião, diante da incapacidade da Bolívia de suprir o mercado argentino, o governo Lula aceitou uma pequena redução no fornecimento de gás boliviano à Petrobrás e aumentou a exportação de energia elétrica para a Argentina.

Dessa vez, os níveis dos reservatórios das hidrelétricas brasileiras não dão tranqüilidade para a receita ser repetida. O Operador Nacional do Sistema (ONS) prevê que haverá necessidade de manter usinas térmicas em funcionamento durante todo o ano, o que significará maior demanda por gás.

Além disso, não há certeza de suprimento para a planta de regaseificação de Gás Natural Liquefeito (GNL) que a Petrobrás quer inaugurar em meados do ano, em Pecém (CE). ¿Todos têm cobertor curto¿, resumiu o subsecretário-geral de Assuntos de América do Sul do Itamaraty, embaixador Ênio Cordeiro.

O dilema está numa equação que envolve a atual capacidade de produção diária da Bolívia, de 42 milhões de metros cúbicos, o abastecimento de 6 milhões de metros cúbicos a seu mercado interno e os contratos de exportação ao Brasil e à Argentina.

A Petrobrás pode requerer até 30 milhões de metros cúbicos diários. A Argentina tem direito a, no máximo, até 7,7 milhões, mas vem recebendo entre 2,5 milhões e 3 milhões de metros cúbicos por dia, segundo o próprio García Linera. Em setembro, a Bolívia limou o suprimento à TermoCuiabá, de 1,1 milhão de metros cúbicos.

Para atender a todos esses clientes, a Bolívia deveria produzir 44,8 milhões de metros cúbicos diários - 2,8 milhões a mais. Segundo García Linera, o buraco será coberto pela produção adicional de até 3 milhões, disponível a partir de outubro. Para 2009, o governo boliviano espera contornar o dilema da produção menor que a demanda com uma oferta adicional de 6 milhões a 7 milhões de metros cúbicos.

¿O ano de 2008 será o da arrancada do investimento no setor. Teremos injeção recorde de US$ 1,1 bilhão¿, disse García Linera, que contabilizou a ainda incerto investimento de US$ 300 milhões da Petrobrás em seus dois campos na Bolívia. ¿Mas falta a ponte para o inverno¿, admitiu.

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