Título: Saldo em queda
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Fonte: O Estado de São Paulo, 06/02/2008, Notas e Informações, p. A3
Os resultados de janeiro parecem confirmar os prognósticos dos que, em razão da progressiva redução dos saldos da balança comercial, falam da inevitabilidade do ressurgimento de déficits. No mês passado, houve forte redução do saldo comercial. O superávit, de US$ 944 milhões, é 62,5% menor do que o de janeiro de 2007 (US$ 2,52 bilhões) e 74% inferior ao de dezembro de 2007 (US$ 3,64 bilhões). O saldo acumulado do período de 12 meses, de US$ 38,46 bilhões, é 16,6% menor do que o resultado acumulado de 12 meses até janeiro de 2007, de US$ 46,14 bilhões.
Os exportadores que reivindicam medidas para compensar a valorização do real em relação ao dólar vinham advertindo que o regime cambial em vigor estava levando à estagnação das vendas externas e até a uma redução em valor e em volume. Os dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, no entanto, mostram que isso não está ocorrendo - pelo menos até o momento. Em janeiro, as exportações foram 20,9% maiores do que as de janeiro de 2007. O resultado acumulado de 12 meses até janeiro de 2008, de US$ 162,9 bilhões, por sua vez, é 16,8% maior do que o de 12 meses até janeiro de 2007, de US$ 139,5 bilhões.
O que provoca a redução do saldo é o crescimento muito mais acelerado das importações. Em janeiro, o Brasil importou o equivalente a US$ 12,33 bilhões, 45,6% mais do que em janeiro do ano passado e 5,8% mais do que em dezembro. Na comparação dos períodos de 12 meses encerrados em janeiro deste ano e em janeiro do ano passado, o aumento é de 33,3%.
O governo atribui o forte crescimento das importações no mês passado à necessidade de reposição de estoques e de ampliação da capacidade produtiva da indústria brasileira em razão da intensificação do ritmo de atividade no último trimestre do ano passado, constatado pela Confederação Nacional da Indústria na Sondagem Industrial Trimestral divulgada há alguns dias.
De fato, a importação que mais cresceu foi a de bens de capital, com aumento de 56,9% em relação a janeiro de 2007. As importações de máquinas industriais cresceram 74,4% e as de máquinas e aparelhos para escritório e científicos, 33,4%. No segmento de matérias-primas e bens intermediários, os itens cujas importações mais cresceram foram produtos alimentícios primários (99,2%), acessórios de equipamentos de transporte (67%), produtos agropecuários não alimentícios (53,1%), produtos químicos e farmacêuticos (45,1%) e minerais (31,7%).
O descompasso entre importações e exportações não é fenômeno recente. O aumento muito maior das compras do que o das vendas externas, que vem reduzindo o superávit comercial, é uma tendência firme da balança comercial brasileira. No ano passado, por exemplo, as importações cresceram quatro vezes mais do que as exportações. ¿Nesse ritmo, poderemos ter déficit em 2010¿, advertiu o economista Fernando Ribeiro, da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), em entrevista ao jornal Valor.
Pesquisa feita por Ribeiro constatou que, no ano passado, enquanto as exportações aumentaram 5,5% em volume, as importações cresceram 22%. A desvalorização do dólar em relação ao real retirou competitividade das exportações e estimulou as importações. Mas outros fatores, como o aquecimento da economia brasileira, reduziram a capacidade de alguns setores industriais de atender, simultaneamente, aos mercados interno e externo. Fatores como esse inibiram as exportações, ao mesmo tempo que estimularam as importações.
Os bons preços internacionais funcionaram até agora como um amortecedor para as perdas dos exportadores com a desvalorização do dólar. No ano passado, por exemplo, os preços dos produtos manufaturados subiram 8,4%, depois de uma alta de 12,3% em 2006. ¿Esses números mostram por que a exportação agüentou a valorização do câmbio¿, segundo o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atual consultor do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial. ¿A variação dos preços compensou um pouco a rentabilidade que o câmbio tirou.¿