Título: Exército luta por Barack Obama em Ohio
Autor: Dias, Cristiano
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2008, Internacional, p. A14

Voluntários enfrentam 8 horas de ônibus para trabalhar por vitória de senador

Columbus, Ohio - Os soldados de Barack Obama, um exército de milhares de disciplinados voluntários que foram a chave do sucesso do candidato até agora, preparam-se para seu maior desafio: acabar com o domínio da candidata Hillary Clinton em Ohio.

Hillary tem o apoio do establishment do Partido Democrata no Estado e está, em média, 4 pontos porcentuais à frente de Obama nas pesquisas. Mas o senador de Illinois conta com o poder de seus ¿soldados¿. Em Ohio, uma legião de mais de 8 mil voluntários promete bater em 1 milhão de portas, pedindo votos. A reportagem do Estado passou dois dias infiltrada no exército de Barack Obama.

Cerca de 400 pessoas deixaram Washington D.C. na semana passada e encararam oito horas de ônibus para trabalhar, de graça, para Obama em Columbus, capital de Ohio. Muitos dormiram no chão do YMCA local. Alguns se ajeitaram em sofás no comitê. Outros pagaram do próprio bolso para dormir no Motel 6: US$ 40 por noite.

No Obamabus, não há apenas universitários entusiasmados. Trata-se de um grupo bastante diverso: brancos, negros, asiáticos e latinos, velhos e jovens. Philip Baker, por exemplo, era o estereótipo do republicano - branco, mais velho, chegou ao ônibus com o jornal conservador The Wall Street Journal debaixo do braço. Sentou no fundão, no meio dos universitários. ¿Meus amigos não acreditavam que eu viesse¿, conta Baker, que tem 71 anos. ¿Eles disseram: Você ficou louco? E o seu problema no joelho? Vai viajar oito horas de ônibus para andar no meio de um monte de gente, batendo em porta?¿, diz o aposentado, que já trabalhou como educador.

Os soldados de Obama vieram preparados - luvas, gorros, garrafas térmicas com chá, aquecedores de mão, rolo de papel higiênico, lanterna - para bater perna em meio ao frio de 5 graus negativos. O café da manhã é hambúrguer, o almoço é pizza, o jantar é pizza fria.

O processo de recrutamento dos voluntários explica grande parte do sucesso da operação. O website do candidato funciona como um site de relacionamentos, um ¿Orkut do Obama¿, e foi desenvolvido por um dos criadores do Facebook. Nele, simpatizantes alistam-se, organizam festas para arrecadar recursos, conseguem caronas para participar de comícios e, de quebra, fazem amigos. Uma vez inscrito no site, o potencial voluntário passa a receber e-mails convocando-o para trabalhar.

FOLGA POR OBAMA

A corretora de imóveis Camille Boyd, de 37 anos, já é veterana: trabalhou para Obama na Carolina do Sul e em Washington D.C. Dessa vez, tirou dois dias de folga para tentar reverter a vantagem de Hillary na primária de hoje. Antes de Obama, Camille nunca foi muito politizada: essa é a primeira vez que é voluntária numa campanha. ¿Nunca senti isso antes em relação a um candidato. Meu marido não agüenta mais, só falo do Obama. Na Carolina do Sul, apertei a mão dele, quase morri de emoção. Gritei: Barack, eu te amo! Sou muito fã, né?¿

Cada voluntário recebe um pacote de campanha com instruções de como abordar eleitores e um mapa das casas a visitar. ¿Olá, eu sou voluntário da campanha de Barack Obama aqui em Ohio, como vai você? A primária será na terça-feira (hoje). O senhor já decidiu em quem vai votar?¿

Daí, o voluntário precisa anotar algumas informações, como se o eleitor apóia Obama ou não, se já votou antecipadamente, se pretende participar da primária ou se precisa de carona para ir votar. Se o eleitor disser que apóia Hillary ou o republicano John McCain, a orientação é não insistir. Mas se estiver indeciso, vale usar a lábia. Para garantir que cada simpatizante de Obama vote mesmo, os voluntários o visitam três vezes. Hillary também tem seu esquema de voluntários. Mas eles são em menor número e a organização não é tão boa.

Tirar a vantagem de Hillary será difícil, mas Obama aposta no entusiasmo de seus voluntários para uma virada no Estado. E que entusiasmo. ¿Estamos fazendo história, vão escrever sobre nós¿, disse a voluntária Norma Jones, de 65 anos. ¿Somos os novos Freedom Riders¿, afirma, referindo-se aos ativistas de direitos civis que nos anos 60 enchiam ônibus com negros e brancos para desafiar a segregação racial nos Estados do sul.