Título: Governo vê falhas e revisa cobertura de vacinas infantis
Autor: Leite, Fabiane
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/02/2008, Vida, p. A12

Embora índices gerais sejam satisfatórios, déficits localizados podem trazer reintrodução de doenças

Fabiane Leite

O Ministério da Saúde está revisando a cobertura de vacinas do calendário básico da criança em razão de possíveis falhas no Programa Nacional de Imunizações (PNI). Divulgado em maio do ano passado, antes do início da avaliação, o último relatório sobre coberturas vacinais diz que o País tem índices satisfatórios de cobertura das principais vacinas e controle adequado das doenças que elas previnem, mas identifica déficits localizados que podem trazer risco de reintrodução ou introdução de doenças. A situação é um desafio para o PNI, esforço da União, Estados e municípios que, em mais de 30 anos de existência, conquistou boa reputação, com marcos como a erradicação da varíola e da paralisia infantil.

Os déficits de cobertura ocorrem principalmente em grandes municípios - apenas seis capitais, Goiânia, Salvador, Curitiba, Vitória, São Luís e Belém, tiveram coberturas satisfatórias para todas as vacinas avaliadas em 2006, por exemplo. São Paulo e Rio não cumpriram as metas para a maior parte das vacinas aplicadas em crianças de até um ano de idade. Mas especialistas e o próprio ministério reconhecem que coberturas muito elevadas verificadas em algumas cidades (acima de 100%, por exemplo) podem estar relacionadas a erros no cálculo da população-alvo e no número de doses aplicadas (leia mais na página ao lado).

Em todo o País, o principal déficit, segundo os dados de 2006, era na vacinação de hepatite B - 70% das capitais não cumpriram a meta -, seguida pela vacina tetravalente (contra difteria, tétano, coqueluche e um tipo de meningite), para a qual 59% das capitais tiveram resultados aquém do esperado.

Em nota técnica, o ministério reconheceu que os dados atuais sobre coberturas estão 'sujeitos a importantes erros de registro, transcrição, estimativa da população alvo e outros', o que pode trazer distorções nos dados disponíveis. A nota aponta ainda preocupação com a tendência de coberturas vacinais mais baixas nas camadas da população com melhores condições de vida.

'O ministério está preocupado com os dados de cobertura do País. Pelos registro das doenças que podem ser prevenidas com vacina, que indicam controle dessas doenças, a cobertura é boa, mas é preciso que ela seja boa e homogênea, caso contrário podem se formar bolsões de pessoas não vacinadas', afirma o coordenador do inquérito populacional que revisa a cobertura das vacinas, o epidemiologista José Cássio de Moraes, do Centro de Estudos Augusto Leopoldo Ayrosa Galvão, da Santa Casa de São Paulo, que já havia executado pesquisa semelhante para o Estado de São Paulo.

Estão sendo verificadas, em domicílio, as coberturas vacinais por meio de checagem das carteiras de vacinação. A amostra é de 20 mil crianças nascidas em 2005 em todas as capitais. Atualmente, a coleta de dados ocorre em Brasília, Porto Alegre, Cuiabá, São Paulo e Salvador. As demais cidades já estão em fase de digitação de informações.

Moraes lembra que estudos semelhantes à pesquisa nacional revelaram, por exemplo, que as coberturas vacinais não estavam adequadas antes da epidemia de sarampo registrada entre 1996 e 1997 no Estado de São Paulo. 'Vimos que, antes da campanha, havia bolsões de pessoas não vacinadas. Aprendemos com os erros.' Também os surtos de rubéola e sarampo registrados em 2006 no País têm relação com grupos não vacinados, diz o ministério.

O técnico explica que o fato de a população-alvo das campanhas ter sido, por muito tempo, baseada nos censos, feitos em grandes intervalos de tempo, dificultou um correto estabelecimento de metas. Mesmo com a adoção dos registros de nascidos vivos para fazer as estimativas de vacinação há problemas, pois nem todos os Estados têm a mesma qualidade de dados.

A diferença da pesquisa de agora é que a checagem das coberturas será feita diretamente nas carteiras das crianças. Os resultados permitirão uma reavaliação das estratégias do PNI. Procurada, a Secretaria de Vigilância em Saúde do ministério não quis conceder entrevista.

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