Título: Preço das commodities é o fator crucial do contágio
Autor: Chiara, Márcia De
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/03/2008, Economia, p. B3

O comportamento dos preços das commodities nos próximos meses é o fator crucial para determinar se o Brasil será ou não afetado pela crise americana, segundo avaliação do ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) e economista-chefe para a América Latina do Banco Real, Alexandre Schwartsman. Apesar desse fator de risco, ele observa que a economia brasileira é muito fechada em relação a outros emergentes, como o México, que tem 36% do Produto Interno Bruto (PIB) ligado aos EUA. A seguir os principais trechos da entrevista.

O Brasil será afetado pelas recessão dos Estados Unidos?

Em certa medida já há algum impacto que, em si, não é muito importante. As exportações do Brasil para os EUA desaceleraram. O que vai determinar ser o País sofrerá os impactos da crise está relacionado com os preços das commodities, se continuarão forte ou terão uma reversão. Esse fator é absolutamente crucial.

O sr. acha que isso vai ocorrer?

Até agora não parece que vai acontecer.

Por quê?

Há dois fatores que colaboram para isso. Um deles é o padrão da desaceleração mundial, que está mais concentrado nos EUA e muito menos em outras regiões que são consumidoras de commodities, como China, outros países da Ásia e, em certo grau, Europa. Não parece que uma desaceleração nos EUA esteja causando desaceleração similar em outras partes do mundo. Esse é um risco, mas não está aparente agora. O outro fator é a desvalorização do dólar. Quando isso acontece, aumentam os preços das commodities em dólar, o que nos beneficia também. O Brasil será afetado, mas, por enquanto, num nível muito modesto.

Qual é o principal canal de transmissão da crise?

O principal canal de transmissão da crise são as commodities. Hoje o preço das commodities em alta impulsiona as nossas exportações, das quais dois terços são commodities. O impulso nas exportações permite que o País importe muito. Esse mecanismo dá força à demanda doméstica. É exatamente a demanda doméstica que está empurrando o PIB. O aumento dos preços das commodities permite que o País cresça sem grandes desequilíbrios externos. Se esse cenário virar, obviamente, não haverá condições de suportar o crescimento da demanda doméstica, hoje na faixa de 6% a 6,5%.

O sr. está otimista?

Eu não vejo a desaceleração dos EUA nos levando a um cenário catastrófico. O Brasil é uma economia relativamente fechada. Exportamos de 13% a 14% do PIB. A nossa dinâmica de crescimento está ligada à demanda doméstica. Se fôssemos o México, teríamos problemas bem mais sérios. O México exporta 45% do PIB, três vezes mais que o Brasil, e cerca de 80% para os EUA. Ele tem 36% da PIB ligado de alguma forma à economia americana. Aí é um problemaço. O Brasil exporta cerca de 15% do PIB, dos quais 15% são para os EUA. Temos exposto aos EUA um pouco mais de 2% do PIB.

A avaliação do Banco de Compensações Internacionais (BIS) de que a crise estaria chegando aos emergentes se aplica ao Brasil?

Não. Só se aplicaria se ocorresse um colapso nos preços das commodities.