Título: Protesto contra independência reúne 5 mil sérvios em Kosovo
Autor: Sant'Anna,Lourival
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/02/2008, Internacional, p. A26
Separados dos albaneses por um rio, representantes de minoria sérvia da cidade de Mitrovica rejeitam divisão
Eram 12h44 quando o hino nacional da Sérvia começou a tocar, despertando fortes sentimentos nos cerca de 5 mil kosovares sérvios que se reuniram ontem em Mitrovica, noroeste de Kosovo, para protestar contra a independência da ex-província sérvia, proclamada no domingo. Se os albaneses são minoria na Sérvia, os sérvios são minoria no novo país criado pelos albaneses - e não se conformam com essa condição.
Apesar do patrulhamento reforçado por parte das tropas de paz da Otan, que assumiu a defesa do território depois de bombardear as forças sérvias em 1999, servo-kosovares entraram em confronto com soldados da organização e policiais locais. Manifestantes jogaram pedras e garrafas contra as forças de segurança no protesto sobre a ponte do Rio Ibar, que separa os lados sérvio e albanês da cidade. A manifestação não deixou feridos. Soldados franceses a serviço da Kfor, a força liderada pela Otan com 16 mil soldados de 35 países, conseguiram impedir ontem a entrada no território de ônibus com manifestantes da Sérvia.
Desde a proclamação de independência, os sérvios do norte de Mitrovica - separados pelo Rio Ibar dos albaneses que vivem ao sul da cidade - reúnem-se nesse mesmo horário. O número é uma referência à resolução 1244 do Conselho de Segurança da ONU, que em 1999 assegurou a ¿integridade territorial¿ da Sérvia, com ¿autonomia substancial para Kosovo¿, ao criar uma missão das Nações Unidas (Unmik) no território.
Com base nela, os servo-kosovares consideram ¿ilegal¿ a independência de Kosovo, reconhecida pelos EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Turquia, entre outros.
¿Kosovo é Sérvia e nunca nos renderemos, apesar da chantagem da União Européia¿, discursou Dragan Deletic, representante do governo sérvio, que não reconhece a independência, assim como a Rússia, tradicional aliada do país. A UE - que se prepara para enviar 1,8 mil policiais, juízes, promotores e fiscais de alfândega para ajudar o governo do novo país a manter a lei e a ordem - acena com um futuro ingresso no bloco tanto de Kosovo como da Sérvia, em troca da reconciliação e da aceitação da independência.
¿Não reconheço o Estado albanês de Kosovo¿, disse Melissa Rakic, estudante de sociologia de 21 anos, que participava da manifestação. À pergunta sobre se a solução não seria manter na Sérvia apenas a região norte, onde se concentra a maior parte dos 120 mil sérvios de Kosovo (de uma população de 2 milhões), ela respondeu: ¿Não quero a divisão de Kosovo. Esta é a terra santa da Sérvia.¿ Nas caixas de som do palanque montado na Avenida Sumadija, a principal de Mitrovica, tocava a tradicional canção patriótica Vidovdan, para comoção dos manifestantes: ¿Onde quer que eu vá no mundo, tenho de voltar a Kosovo. Deus poderoso, você deve nos ajudar a manter Kosovo em nossa alma. Temos de lutar por ele.¿
O pequeno território de menos de 11 mil km² foi cenário, nos últimos séculos, de sangrentas batalhas entre os sérvios e os árabes, turcos e albaneses, e nele se encontram algumas das mais importantes igrejas e locais sagrados para os cristãos ortodoxos sérvios, que dizem que eles não podem ficar nas mãos dos albaneses (90% da população), em sua maioria muçulmanos. Melissa disse que nunca teve amigos albaneses, apesar de, a pouco mais de cem metros dali, cruzando o rio, na mesma cidade, a população ser quase toda albanesa.
Links Patrocinados