Título: Trilha de Cacciola passa por uma caixa chinesa
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/02/2008, Economa, p. B18

Investigação da vida financeira do ex-banqueiro na Itália, deixada de lado por 7 anos, conduz a um hotel cujo dono está oculto por várias empresas

Gina Marques

Antes de ser detido em Monte Carlo, em setembro de 2007, Salvatore Cacciola viveu sete anos, confortavelmente, na Itália, movendo-se com habilidade financeira. Afinal, segundo o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, ¿não existe ninguém com mais conhecimento para enviar dinheiro para o exterior do que um presidente de banco¿.

Tuma Júnior informou também que o governo brasileiro investiga a existência de contas secretas do ex-banqueiro no exterior , sem especificar os países.Considerando que Cacciola residia em Roma, seria importante que a secretaria obtivesse informações sobre a movimentação das contas bancárias dele na Itália, mas nos últimos sete anos o governo brasileiro não fez nada para obter tais dados.

A investigação é competência do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), subordinado à Secretaria Nacional de Justiça. No caso de Cacciola, cidadão italiano, é necessário que esse órgão peça a quebra do sigilo bancário às autoridades italianas. Não é um processo rápido. O pedido tem de ser encaminhado pela Embaixada do Brasil na Itália, mas, segundo fontes da embaixada, ¿nos últimos anos o assunto Cacciola não foi tema das relações entre os dois países.¿

PISTAS

O luxuoso hotel no centro histórico de Roma, o Fortyseven, não pertence diretamente a Cacciola, mas a uma sociedade por ações (s.p.a) chamada Società di Gestione Alberghiera (Sogeal). Essa sociedade, com sede na capital italiana, na Via Petroselli, 47, mesmo endereço do hotel, foi constituída em setembro de 2000, poucos dias após a chegada de Cacciola à Itália, foragido da justiça brasileira graças à cidadania italiana.

A Sogeal foi inicialmente formada como simples S.r.l. (sociedade de responsabilidade limitada) com o capital mínimo previsto na lei na época, de 20 milhões de liras (cerca de 10 mil). Segundo documentos oficiais da Câmara de Comércio de Roma, Cacciola aparece pela primeira vez nessa sociedade, como presidente do conselho de administração, em julho de 2002, quando a Sogeal virou Spa (sociedade por ações) juridicamente muito mais forte.

A partir de então, começou uma série de três fortes aumentos de capital da Sogeal: em outubro de 2002 foi para 300 mil; em novembro de 2003, para 600 mil e em março de 2004, para 720 mil.

Sempre segundo o registro da empresa relativo a 2007, Cacciola tem só 5% do capital da Sogeal; os restantes 95% são de uma empresa com sede em Londres, a Mebo Holding Limited. Assim, Cacciola não aparecia como sócio majoritário ou direto financiador do hotel. No entanto, ele permanecia no comando porque, até a sua detenção em Monte Carlo, era ainda presidente do conselho de administração, oficialmente sem ter investido mais de 30 mil. Por coincidência ou costume do ex-banqueiro, a sua atividade financeira se assemelha ao sistema das caixas chinesas, com uma empresa dentro da outra.

No final, o hotel pertence à Mebo, com capital de £ 10 mil. A Mebo é controlada pela americana Baronet Holdings LLC (limited liabity company), corporação pessoal que mantém o nome do dono em sigilo. A Baronet, com sede em Albany, Estado de Nova York, estaria ligada (tem o mesmo endereço) à USA Corporate Services Inc., empresa de consultoria composta por advogados que aconselham os clientes onde aplicar dinheiro, como em ilhas offshore e outros paraísos fiscais.

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