Título: As prévias da discórdia democrata
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/03/2008, Notas e Informações, p. A3

As prévias e assembléias eleitorais (caucuses) nos Estados Unidos, com as suas regras muitas vezes obscuras, que podem variar de lugar para lugar e de partido para partido, exprimem a admirável tradição nacional da democracia pela base - grassroots democracy - que tanto fascinava, há 170 anos, o historiador francês Alexis de Tocqueville, autor do clássico A democracia na América. Na sucessão presidencial deste ano, esse intrincado sistema entrou ele próprio na ordem do dia, adicionando um componente perturbador ao que tem sido o maior espetáculo político da Terra, pela singularidade dos presidenciáveis do Partido Democrata e pelo andamento surpreendente do confronto entre eles.

A complexidade do processo permite a Barack Obama e a Hillary Clinton interpretar cada qual a seu modo os resultados das 44 votações completadas até aqui (faltam 12), com um total sem precedentes de 26 milhões de sufrágios.

Além disso, o resultado ainda incerto das prévias na Flórida e em Michigan, que o partido invalidou porque foram realizadas fora dos prazos estabelecidos, acrescenta uma questão espinhosa ao agora ácido contencioso entre ambos - a que o já definido candidato do Partido Republicano, John McCain, assiste de camarote. Os argumentos que a mulher do ex-presidente Bill Clinton e o primeiro negro com chances reais de disputar a Casa Branca extraem dos números que amealharam refletem visões antagônicas da enovelada lógica do sistema.

Nas primárias, como são também chamadas, escolhem-se os delegados estaduais às convenções partidárias que indicarão os aspirantes à presidência dos EUA. Os eleitores votam nos nomes que se identificam com os diferentes presidenciáveis. Para a distribuição das vagas, os democratas adotam uma regra pela qual a margem de vitória nas urnas não dá necessariamente ao vitorioso um total proporcionalmente equivalente de delegados.

A coisa é tão complicada que as contagens extra-oficiais não conferem. Segundo a agência Associated Press, uma das fontes mais confiáveis, Obama tem 1.360 delegados e Hillary, 1.220. Sairá candidato quem obtiver na convenção pelo menos 2.025 votos. É certo que, ao final das prévias, em 7 de junho, nem ele nem ela terão alcançado o número mágico. É quase certo também que Hillary não conseguirá suplantá-lo. A menos, talvez, que o partido decida validar as prévias da Flórida (que tem direito a 210 delegados) e de Michigan (156), como ela agora pretende, ou autorizar ali novas votações. À época, em janeiro, os candidatos chegaram a um acordo tácito de desconsiderar tais primárias. Hillary mal fez campanha naqueles Estados, onde venceu. Obama nem sequer tinha delegados em Michigan. À parte essa incógnita, o máximo a que ela pode aspirar é reduzir a dianteira de Obama para resolver a partida no tapetão.

Ou seja, pelo voto dos 796 convencionais natos, por exercerem mandatos eletivos ou cargos na estrutura partidária, livres para sufragar quem queiram. Destes superdelegados, 242 já se teriam comprometido com Hillary e 209 com o seu competidor.

Para Obama, eles não têm escolha: cabe-lhes referendar na convenção de agosto, em Denver, no Colorado, o voto das bases democratas que lhe tiverem dado a maioria dos delegados. O contrário seria trair a vontade popular (com o impacto, vai sem dizer, que teria a decisão de uma caciquia predominantemente branca de cortar o caminho do primeiro negro com chance, de fato, de se tornar presidente).

Hillary discorda. Se o partido quer mesmo bater McCain, a circunstância de ela ser derrotada na maioria das prévias, enfatiza, deve pesar menos do que os seus êxitos nos Estados mais populosos, por isso mesmo cruciais para o desfecho do pleito de novembro: Califórnia, Nova York, Texas, New Jersey, Flórida - e, quem sabe, Pensilvânia, em 22 de abril.

Hillary brande ainda a sua vitória em Ohio, na terça-feira, quando quebrou a série de 11 vitórias consecutivas de Obama. Não só porque Ohio foi o marco da sua formidável volta por cima, mas porque todos os presidentes que se elegeram nos últimos 44 anos ganharam ali. O pior, para os democratas, é a crescente acrimônia entre os dois, com acusações mútuas que vão se empilhando - e que a campanha de McCain não deixará de explorar.

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