Título: Petróleo fecha acima de US$ 105. Desta vez, a culpa é do dólar
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Fonte: O Estado de São Paulo, 07/03/2008, Economia, p. B1
Ataque de guerrilheiros a oleoduto colombiano na fronteira com o Equador também puxou cotação recorde
Os contratos futuros de petróleo fecharam ontem pela primeira vez acima dos US$ 105 por barril na Bolsa Mercantil de Nova York (Nymex, na sigla em inglês). Segundo operadores de mercado, o principal motivo para a alta da commodity foi o novo recorde do euro ante o dólar - na máxima cotação do dia, a moeda única européia chegou a US$ 1,5395.
Esse movimento cambial leva os investidores a ajustar os preços, uma vez que o dólar é a moeda de referência no mercado global de petróleo - e também da maioria das commodities. ¿O principal motivo hoje para vermos os preços do petróleo nesses níveis é o dólar¿, afirmou Mark Waggoner, presidente da Excel Futures.
Os contratos para entrega em abril fecharam a US$ 105,47 por barril, alta de 0,91% em relação à quarta-feira. Na máxima do dia, a cotação atingiu US$ 105,97. Foi a sexta sessão, em oito, em que a o petróleo encerrou o dia acima de US$ 100.
Outro fator, ainda que de menor relevância, para a alta do óleo ontem foi o anúncio, pela estatal colombiana Ecopetrol, de que as operações de um oleoduto próximo da fronteira com o Equador foram suspensas por causa de um ataque de guerrilheiros à instalação.
Na quarta-feira, a redução inesperada nos estoques de petróleo dos Estados Unidos e a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de não elevar a produção, durante uma reunião em Viena, já haviam deixado o mercado mais tenso.
Como era esperado, a Opep ignorou a forte tendência de alta dos preços nos últimos meses e os pedidos dos Estados Unidos, sobretudo do presidente George W. Bush, para que aumentassem o nível de oferta. Hoje, a produção diária total do cartel é de 29,7 milhões de barris.
O grupo rejeitou, ainda, ser apontado como principal responsável pela forte alta dos preços do petróleo, que atribui a fatores como a desvalorização do dólar, a especulação nos mercados de futuros, os conflitos geopolíticos e os problemas no setor de refino.
O ministro do Petróleo da Arábia Saudita, Ali al-Naimi, disse, um pouco antes do encontro em Viena, que o preço do barril não voltará para a casa dos US$ 60 ou US$ 70, que é o limite inferior para rentabilizar o negócio. Seu país, o maior produtor do mundo, foi um dos que se negaram a elevar a cota atual. Naimi afirmou que ¿uma linha já limita o nível de preços abaixo da qual não pode cair¿. Segundo ele, esse nível é de US$ 60 a US$ 70, pois abaixo dele ¿ninguém consegue ganhar dinheiro¿.
Entretanto, Naimi garantiu que seu país continuará a investir para aumentar a capacidade de extração até o fim de 2009. ¿Isso significa que vamos continuar contemplando aumentos e perfurar mais poços¿, afirmou.
O analista Phil Flynn, da Alaron Trading, avisou que hoje de manhã os investidores vão acompanhar com atenção a divulgação dos dados do nível de emprego nos EUA de fevereiro. Um indicador fraco poderá reforçar os temores de desaceleração ainda mais forte e, conseqüentemente, na demanda global por petróleo. Por extensão, essa análise provocaria um recuo das cotações.
Flynn pondera, no entanto, que nas atuais condições de mercado pode até mesmo ocorrer o oposto. ¿Se tivermos um relatório sobre emprego realmente fraco, poderá até favorecer uma alta dos preços, pois isso cimentaria entre os investidores a idéia de que virão mais reduções das taxas de juro nos Estados Unidos , talvez agressivas, o que enfraqueceria mais o dólar ante outras moedas.¿
De outro lado, um número forte no informe de emprego nos Estados Unidos pode alimentar a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) interrompa a seqüência da reduções da taxa básica de juros e possa até voltar a subi-la, ainda que no médio prazo. De um lado, isso fortaleceria o dólar, mas, de outro, poderia diminuir a procura por petróleo e seus derivados.
LONDRES
O petróleo do tipo Brent, de referência na Europa, fechou em alta ontem e se aproximou da barreira dos US$ 103, também impulsionado pela fraqueza do dólar e pela decisão da Opep de manter suas cotas oficiais de produção. O barril do Brent para entrega em abril fechou o dia cotado por US$ 102,61 na Bolsa Intercontinental de Futuros de Londres, alta de 0,95% em relação ao dia anterior. O valor também é recorde.
A alta do petróleo ocorre ao mesmo tempo em que os preços dos combustíveis e em particular o gasóleo de calefação, atingem valores históricos. Os contratos desse combustível terminaram o pregão de ontem a US$ 2,9733 o galão de 3,78 litros na Nymex, US$ 0,03 mais que no dia anterior.
Previsões meteorológicas indicam que uma potente frente fria atingirá nos próximos dias grande parte do território americano, o que deve aumentar o consumo de combustíveis de calefação. Os contratos de gasolina para abril subiram US$ 0,01, para US$ 2,6532 o galão. AGÊNCIAS INTERNACIONAIS