Título: Unânime, Copom deixa Selic em 11,25%
Autor: Pereira, Renée ; Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2008, Economia, p. B4
Comitê diz que seguirá `atentamente¿ a evolução do cenário econômico
Renée Pereira e Fernando Nakagawa
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano, pela quarta vez consecutiva. A decisão, unânime e sem viés, veio acompanhada de uma pequena alteração no tradicional comunicado divulgado após a reunião, mas que pode sinalizar a retomada da alta dos juros em breve, segundo alguns analistas.
A mudança foi a inclusão da palavra ¿atentamente¿ ao texto da reunião de janeiro. ¿Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 11,25% ao ano, sem viés. O Comitê irá monitorar atentamente a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.¿
Diante da sutil mudança, os economistas não descartam o início do ciclo de aperto monetário a partir da próxima reunião, em abril. O cenário deverá ficar mais claro a partir da quinta-feira que vem, quando o BC divulga a ata da reunião de hoje e expõe todos os seus argumentos para a manutenção da Selic nos níveis atuais. ¿Acreditamos que o Copom mantenha o discurso duro na ata de quinta-feira, já que os fatores de risco para a trajetória futura da inflação continuam¿, afirma o economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles.
Antes mesmo de terminar a reunião, o mercado futuro de DI já apontava para uma possível alta dos juros nas próximas reuniões. Para abril, as projeções indicam Selic em 11,5%, ou seja, alta de 0,25 ponto porcentual, afirma o economista da corretora López León, Flávio Serrano. Segundo ele, os dados do mercado mostram que em dezembro a taxa estaria em 12,5%.
O economista da Gap Asset Management Alexandre Maia diz que faria todo sentido o BC começar a elevar os juros em abril. Segundo ele, embora a inflação de curto prazo tenha arrefecido, ela diz muito pouco. ¿O cenário não melhorou. Ao contrário. Piorou.¿ A explicação do economista está na escalada dos preços das commodities, sejam metálicas, agrícolas ou de energia.
¿O BC está coeso em sua decisão. Os emergentes estão demandando muitas commodities, o que tem pressionado os preços.¿ Segundo ele, a alta das commodities tem se transformado numa grande dor de cabeça para todos os países emergentes em relação aos índices de inflação.
Na opinião do economista-chefe da ABN Amro Asset Management, Hugo Penteado, além da alta das commodities, o que tem preocupado os dirigentes do BC é o crescimento da economia nacional acima do seu potencial. Isso cria possíveis pressões inflacionárias no futuro e pode demandar uma alta dos juros. Para ele, o BC estará atento a dois importantes fatores até a próxima reunião. O primeiro é o comportamento da demanda. ¿Há possibilidade de se acomodar. Mas a dúvida é em que nível ela vai se acomodar. Se for acima do potencial, há necessidade de alta dos juros.¿ Outro ponto de monitoramento é a ampliação da capacidade instalada do País.
ALTA EM ABRIL
Penteado e Maia acreditam que a retomada de alta dos juros no Brasil pode ocorrer já em abril. Maia aposta que, até o fim do ano, o BC promoverá a elevação de 1,5 ponto porcentual da taxa Selic.
O economista do ABN Amro é mais pessimista. Para ele, o BC será obrigado a elevar em cerca de 3 pontos porcentuais a taxa de juros. ¿E não adianta fazer uma elevação gradual, como ocorreu na Colômbia. Terá de ser uma alta rápida para surtir efeito.¿
A manutenção da Selic em 11,25% ao ano devolveu a liderança dos maiores juros reais do mundo ao Brasil. Segundo levantamento da consultoria UPTrend, com a decisão de ontem, a taxa real brasileira fica em 6,73% contra 6,69% da Turquia.
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